INTRODUÇÃO
Deus é amor. Esta declaração bíblica acerca da pessoa de Deus é fantástica, tanto mais que é rara em toda a Palavra de Deus. São poucas as vezes que surgem afirmações taxativas e simples acerca de Deus. Poucas vezes existem declarações tão vincadas, de simples e directas, acerca de como definir Deus, e é isso que torna quase extraordinária esta afirmação.
Contudo ao mesmo tempo que é simples e directa, as suas consequências são incríveis, e ao pensarmos um pouco mais nisso mesmo, podem até ser desafiadoras colocando os alicerces do que chamamos “vida cristã” em causa.
O amor como característica pessoal de Deus teve uma enorme influência em tudo o que se chama história da humanidade. Foi o grande factor de diferença entre uma história em que, por opção do Homem e afastamento deste, Deus deixaria de ter qualquer intervenção, e uma história, como acontece, em que Deus aparentemente está longe, mas está a encaminhar-se no sentido que Ele determinou.
O amor, por ser tão forte e intenso e profundo, torna-se por isso mesmo difícil de definir, então, a nossa sociedade, recheada de capacidades técnicas, sedenta de definição e ansiando por encaixotar e catalogar cada pedaço das nossas vidas, incapaz, como dito anteriormente, de definir esta poderosa força que é o amor, diluiu o seu sentido, trazendo-lha uma perca de força e de valor, contribuindo para o cinismo de então se viver numa época em que tudo é amor, mas em nada há amor e por nada se tem amor.
Será que sexo é amor? Ou talvez a paixão o seja? Será que o amor de mãe ainda existe? Será que se pode matar por amor? A amizade é um relacionamento de amor? Mas afinal o que é o amor?
Perante esta pergunta parece que encontramos a melhor resposta na Bíblia. O apóstolo Paulo na primeira carta aos Coríntios, no capítulo 13, dá aquela que será a melhor definição de amor que podemos encontrar em toda a literatura mundial. Paulo define o amor pela sua importância para a vida, principalmente, no contexto em que escreve, para a vida do cristão. Depois avança na sua definição mostrando o amor por duas características centrais: o ser sofredor e benigno. Claro que Paulo estava também com dificuldades em definir o que era o amor, mas no meio de uma carta tão cheia de conselhos e de ajudas, de resposta a dúvidas de uma igreja, com qualidades e virtudes, como a de Corinto, Paulo parou olhou de frente e escreveu esta definição de amor.
Claro que podemos falar da intervenção do Espírito Santo no processo de escrita desta carta que entrou no Cânon, mas por vezes pergunto-me se os escritores sagrados, e neste caso concreto Paulo, estariam, ou estaria consciente de que este texto, como muitos outros por si produzidos seriam reconhecidos como tendo sido inspirados por Deus, colocados lado a lado com os textos que desde muito novo aprendeu a amar e a admirar, onde a história e os feitos de Deus pelo seu povo ao longo dos tempos estavam descritos. Não sei o que acharia Paulo, mas ao ler este texto de I Coríntios 13, sinto a urgência de um servo que deseja comunicar aquilo que da sua alma brota abundantemente mas que por vezes se torna dão difícil de explicar aos outros. Paulo sentia um amor tremendo, olhava para o seu Deus e sentia o amor ainda maior, e tentou colocar em palavras limitadas e humanas o que sentia, de si e do seu Deus. Por isso, após falar do amor como sofredor e benigno, Paulo continua definindo o amor por aquilo que ele não é. Parece estranho definir o amor como não sendo invejoso, será que é possível alguém dizer que ama e ser invejoso? É, infelizmente. Não nos esquecemos que Paulo estava a escrever para uma igreja. “Felizmente” foi só em Corinto que os crentes diziam que se amavam e eram invejosos uns em relação aos outros. Por aqui me fico porque acho que as palavras de Paulo se tornam assim evidentemente úteis e certas.
Após isso, Paulo faz duas declarações muito fortes em jeito de conclusão, mas ao mesmo tempo abrindo caminho para o que vem a seguir. Infelizmente, estas duas afirmações estão nas nossas Bíblias em versículos diferentes em vez de estarem no mesmo, estamos a falar de quando nos versículos sete e oito está escrito o amor tudo sofre – repetindo a declaração inicial de que o amor é sofredor –, tudo crê, tudo espera, tudo suporta e nunca falha.
Em seguida Paulo entra numa dimensão que nos parece um tanto estranha e até despropositada, em que de repente fala de profecias que vão deixar de existir, serão aniquiladas, na expressão bíblica, mas creio que vem alguma luz sobre esta parte no versículo 10, quando está escrito que quando vier o que é perfeito, o que é em parte desaparecerá. Creio que Paulo está a falar do gozo pleno do amor no futuro escatológico, demonstrando a influência do amor de Deus no decurso da história humana. Mas vamos ficar por aqui, pois mais para a frente iremos debruçarmo-nos mais acerca deste assunto.
Depois Paulo fala da maturidade, trazendo o assunto do amor maduro e logo após vem de novo o amor futuro da plenitude do gozo da existência eterna na presença de Deus.
Paulo encerra depois esta fantástica definição de amor com uma linda e poderosa afirmação: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade. Estas três, mas a maior destas é o amor”. Interessante Paulo usar o feminino e não o masculino, ao dizer “estas três” em vez de “estes três”, porque normalmente colocaríamos a fé, a esperança e o amor como sentimentos, e portanto usar o masculino. Aparentemente para o apóstolo não são sentimentos, que são passageiros e enganosos, mas sim forças, forças tremendas e poderosas, capazes de mover montanhas, de ultrapassar todas as desilusões e entregarem o mais querido à morte, de levar a uma mudança na história do mundo.
Vamos então viajar um pouco pelo interior do texto bíblico, procurando mais inferências do sentido desta força, que é o amor, buscando esclarecimento entre tanta penumbra, revelando também assim um pouco mais do coração do nosso Deus.
TEXTO BÍBLICO BASE
Vamos aqui reproduzir o texto de I Coríntios 13, segundo diferentes traduções para a língua portuguesa. De alertar que em algumas surge a palavra “caridade”, mas que deve ser interpretada por “amor”.
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.
A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três; mas a maior destas é a caridade.
Almeida Revista e Corrigida
Ainda que eu falasse línguas,
as dos homens e as dos anjos,
se eu não tivesse a caridade,
seria como o bronze que soa
ou como o címbalo que tine.
Ainda que eu tivesse o dom da profecia,
o conhecimento de todos os mistérios
e de toda a ciência,
ainda que tivesse toda a fé,
a ponto de transportar montanhas,
se não tivesse a caridade,
eu nada seria.
Ainda que eu distribuísse
todos os meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
o meu corpo às chamas,
se não tivesse a caridade,
isso nada me adiantaria.
A caridade é paciente,
a caridade é prestativa,
não é invejosa, não se ostenta,
não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça,
mas se regozija com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
A caridade jamais passará.
Quanto às profecias, desaparecerão.
Quanto às línguas, cessarão.
Quanto à ciência, também desaparecerá.
Pois o nosso conhecimento é limitado,
e limitada é a nossa profecia.
Mas, quando vier a perfeição,
o que é limitado desaparecerá.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Depois que me tornei homem,
fiz desaparecer o que era próprio
da criança.
Agora vemos em espelho
e de maneira confusa,
mas, depois, veremos face a face.
Agora o meu conhecimento é limitado,
mas, depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora, portanto, permanecem a fé,
esperança, caridade,
estas três coisas.
A maior delas, porém, é a caridade.
Bíblia de Jerusalém
Ainda que eu seja capaz de falar todas as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, as minhas palavras são como o badalar de um sino ou o barulho de um chocalho. Ainda que eu tenha o dom de falar em nome de Deus e possa conhecer os seus planos e saber tudo; ainda que eu tenha uma fé capaz de transportar montanhas, se não tiver amor, não presto para nada. Ainda que eu dê em esmolas tudo o que é meu; ainda que me deixe queimar vivo, se não tiver amor, isso de nada me serve.
O amor é paciente e prestável. Não é invejoso. Não se envaidece nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos nem é egoísta. Não se irrita nem pensa mal. O amor não se alegra com uma injustiça causada a alguém, mas alegra-se com a verdade. O amor suporta tudo, acredita sempre, espera sempre e sofre com paciência. O amor é eterno. As profecias desaparecem; as línguas acabam-se, a ciência passa. Pois, tanto as nossas profecias como a nossa ciência são imperfeitas. Quando chegar aquilo que é perfeito, tudo o que é imperfeito desaparece. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Depois, tornei-me adulto e deixei o modo de ser de criança.
Agora, vemos as coisas como num espelho e de maneira confusa. Depois, vemo-las frente a frente. Agora, o meu conhecimento é imperfeito, mas depois vou conhecer como Deus me conhece a mim. Agora, existem três coisas: fé, esperança e amor. Mas a mais importante é o amor.
Bíblia “A Boa Nova”
Se eu tivesse o dom de falar línguas que não tivesse aprendido, e até mesmo as línguas todas do céu e da terra, mas não fosse capaz de amar os outros, não seria mais do que um instrumento de fazer barulho. Se eu tivesse o dom de profetizar e soubesse, por inspiração divina, tudo o que viesse a acontecer no futuro, e, enfim, se eu soubesse tudo sobre todas as coisas, mas não soubesse amar os outros, de que me serviria isso? E até mesmo que tivesse fé de forma a poder falar a uma montanha e fazê-la deslocar-se, isso não teria valor algum sem o amor. Ainda que desse tudo aos pobres, e deixasse que me queimassem vivo por pregar o Evangelho, mas se não amasse os outros, tudo seria inútil.
O amor é paciente e bondoso, nunca é invejoso nem ciumento, nem presunçoso, nem arrogante, nem grosseiro. O amor não exige que se faça o que ele quer. Não é irritadiço, e dificilmente suspeita do mal que os outros lhe possam fazer. Nunca fica satisfeito quando se pratica a injustiça, mas alegra-se quando a verdade triunfa. Quando amamos alguém somos leais para com ele custe o que custar. Acreditamos nele e esperamos dele sempre o melhor, mantendo-nos decididamente em sua defesa.
Todos os dons e poderes especiais que vêm de Deus terminarão um dia, porém, o amor há de sempre continuar. Um dia, tanto a profecia, como o falar línguas desconhecidas, e a especial sabedoria espiritual, todos esses dons desaparecerão. Nós agora sabemos muito pouco, mesmo com a ajuda de todos esses dons especiais; e até a pregação mais inspirada é ainda muito imperfeita. Mas quando a nossa vida se tiver tornado perfeita, completa, então cessará a necessidade desses dons especiais, aliás insuficientes que desaparecerão.
É como quando eu era criança: falava, pensava, raciocinava como uma criança. Mas quando me tornei homem deixei as coisas de crianças. Da mesma maneira, nós agora só podemos ver e compreender um pouco das coisas de Deus; é como se estivéssemos a ver um reflexo num espelho de má qualidade; mas um dia virá em que veremos de uma forma completa, face a face. Tudo quanto sei agora é obscuro e confuso, mas depois verei tudo com clareza, e tão claramente como Deus está vendo o interior do meu coração.
Há três coisas que hão de perdurar: a fé, a esperança e o amor; e destas três a maior é o amor.
O Livro
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa, ou como címbalo que tine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que possua a fé em plenitude, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que distribua todos os meus bens em esmola e entregue o meu corpo a fim de ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita.
A caridade é paciente, a caridade é benigna, não é invejosa; a caridade não se ufana, não se ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
A caridade nunca acabará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão e a ciência findará. Porque a nossa ciência é imperfeita e a nossa profecia também é imperfeita. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será abolido. No tempo em que eu erra criança, falava como criança, sentia como criança, raciocinava como criança; mas quando me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conheço de maneira imperfeita; Então, conhecerei exactamente, como também sou conhecido.
Agora subsistem estas três: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é caridade.
Tradução dos Padres Capuchinhos
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar
A IMPORTÂNCIA DO AMOR
Vamos agora começar então a nossa viagem pela definição paulina de amor, iniciando por olhar para a primeira declaração que o apóstolo faz: “Ainda que eu falasse”...
Como será que alguém pode olhar para este texto e não entender que Paulo considerava como algo de comum para qualquer cristão, para qualquer membro da igreja de Corinto, a quem ele se dirigia, a capacidade, ou melhor, a característica, ou melhor ainda, o dom de falar línguas, sejam dos homens ou dos anjos. Se alguém, por indouto ser, olhar para a expressão “línguas dos homens” e pensar que Paulo estava falando de ser um poliglota, certamente que entenderá que ele está falando de outras coisas ao dizer “dos anjos”. É então claro para este homem de Deus, que um ser humano pode falar línguas de homens e de anjos. Mas como pode ser isso?
Sem querer entrar em grandes discussões sobre o baptismo com o Espírito Santo e o enchimento que esse acontecimento traz, creio que se torna deveras importante ver o valor e até o comum que isso era entre os crentes primitivos, e não apenas entre os que estavam no cenáculo no dia de pentecostes, ou até na casa de Cornélio e noutros eventos, em que a Bíblia descreve, como tendo ocorrido o derramamento do Espírito, mas em toda e qualquer igreja e com todo e qualquer crente. Para Paulo é comum e normal. Portanto assim para nós também deve ser. Sim porque estamos olhando para um homem que teve a ousadia, e a autoridade, para um dia dizer “sede meu imitadores como também eu sou de Cristo”. Não são muitos aqueles que ao longo de toda a história do cristianismo, mesmo entre os primitivos apóstolos, podiam dizer tal coisa. E mais importante ainda, Paulo o escreveu, nunca foi desmentido, nem mesmo pelos apóstolos, sempre foi querido, e o Espírito Santo ainda mostrou ter sido o inspirador de tais palavras, ao ponto dessas terem sido incluídas no cânon neotestamentário. Maravilhoso não é.
Para Paulo era importante e era comum, pois ele escolhe este dom para começar a falar acerca de amor. Claro que ele vai buscar outros dons:
Dom das línguas – “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos”;
Dom da profecia - “E ainda que tivesse o dom da profecia”;
Dom da palavra da sabedoria – “e conhecesse todos os mistérios”;
Dom da palavra da ciência – “e toda a ciência”;
Dom da fé – “e ainda que tivesse toda a fé”.
Os dons espirituais são algo de maravilhoso e edificante para a Igreja, que Deus nos deu e nos dá, os dons espirituais são belas manifestações físicas e evidentes da presença do Senhor, os dons são lindas e refrescantes operações do Espírito Santo. Têm objectivos concretos, e, pegando na lista de dons existente em I Coríntios capítulo 12, podemos dividi-los em três grupos: o primeiro grupo são os dons de ensino – dom da palavra da sabedoria, dom da palavra da ciência; o segundo grupo são os dons de operação ou de actuação – dom de fé, dom de curar, dom da operação de maravilhas; e o terceiro e último grupo são os dons de revelação – dom da profecia, dom de discernir os espíritos, dom da variedade de línguas, dom da interpretação das línguas. Existem outras listas de dons, e autores que acrescentam os ministérios que Deus distribui à lista dos dons espirituais, embora não se faça aqui esse exercício, é interessante observar que todos esses “dons” se podem incluir num destes grupos anteriormente descritos. É necessário ressalvar que esta é uma divisão pessoal, de interpretação e estudo, sem qualquer outro tipo de consequências ou conclusões a tirar.
Perante os dons que Paulo escolheu para o seu texto, questionei-me acerca do porquê da escolha. Então lembrei-me das palavras de Jesus em Mateus capítulo sete, versículos 21 a 23.
Nem todo o que me diz : Senhor, Senhor! Entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demónios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.
Almeida Revista e Corrigida itálico meu
Nesta passagem podemos incluir os dons espirituais usados por Paulo. Mas a primeira e mais imediata pergunta que me surge é esta: Como pode alguém que pratica a iniquidade, ser utilizado por Deus em dons? Sim podemos concluir que eram dons de Deus, uma vez que não foram desmentidos, não podemos concluir, como alguns fazem, que estas pessoas eram usadas pelo Diabo para imitar os dons de Deus. Essa é uma extrapolação exterior ao texto, que não o permite de todo.
Mas a resposta à pergunta feita anteriormente reside na graça de Deus. A estas operações maravilhosas Paulo, e a Palavra de Deus, chama de dons. Dons são dádivas, ou será que já nos esquecemos que a salvação não vem de nós é DOM de Deus. Dom é dádiva imerecida, é entrega total, é depósito sem pagamento, como diz a Bíblia em Isaías capítulo 55, versículos um a 11:
Ah! Todos que tendes sede, vinde à água.
Vós, os que não tendes dinheiro, vinde,
comprai e comei; comprai, sem dinheiro
e sem pagar, vinho e leite.
Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão,
e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer?
Ouvi-me com toda a atenção e comei o que é bom;
haveis de deleitar-vos com manjares revigorantes.
Escutai-me e vinde a mim,
ouvi-me e haveis de viver.
Farei convosco uma aliança eterna,
assegurando-vos as graças prometidas a Davi.
Com efeito, eu o pus como testemunha aos povos,
como regente e comandante de povos.
Assim, tu chamarás por uma nação que não conheces,
sim, uma nação que não te conhece acorrerá a ti,
por causa de Iahweh teu Deus, à busca do Santo de Israel,
porque ele te cobriu de esplendor.
Procurai a Iahweh enquanto pode ser achado,
invocai-o enquanto está perto.
Abandone o ímpio o seu caminho,
e o homem mau os seus pensamentos,
e volte para Iahweh, pois terá compaixão dele,
e para o nosso Deus, porque é rico em perdão.
Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos,
e os vossos caminhos não são os meus caminhos,
oráculo de Iahweh.
Quanto os céus estão acima da terra,
Tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos,
E os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos.
Como a chuva e a neve descem do céu
e para lá não voltam, sem terem regado a terra,
tornando-a fecunda e fazendo-a germinar,
dando semente ao semeador e pão ao que come,
tal ocorre coma apalavra que sai da minha boca:
ela não torna a mim sem fruto;
antes cumpre a minha vontade
e assegura o êxito da missão para a qual a enviei.
Bíblia de Jerusalém
Creio que esta passagem é por demais grandiosa e esclarecedora acerca da natureza das dádivas de Deus. Também estes “dons do Espírito” são apenas ofertas entregues, ou melhor dizendo, distribuídas aos crentes para aquilo que Deus, nos seus mais “altos caminhos e pensamentos” deseja fazer. É verdade que as perguntas parecem se avolumar, os porquês parecem não ter fim, mas pensar que Deus tudo dá de graça e que os seus pensamentos estão muito além do que podemos até compreender! Se ao homem natural isto pode trazer insegurança e parecer até loucura, para aquele que tenta discernir as coisas com um olhar mais profundo e espiritual, as sensações que afloram ao pensamento são precisamente as inversas. Segurança, certeza de que Deus está no controle, assunção de que tudo tem um rumo, um sentido e um propósito, que agora podemos não o compreender e até ver, mas há propósito divino.
A dádiva dos dons de Deus é preciosa, mas Paulo nos alerta que o que dá realmente valor a esses dons, não é uma vida que tem de ser certa e até com um bom testemunho. Jesus disse que muitos que até manifestam dons, não são conhecidos de Cristo, clamam Senhor, Senhor mas estes não são filhos. Os dons só fazem sentido e têm valor se provêm de uma vida onde há fruto do Espírito antes de haver dom. Por isso tantas pessoas se confundem e perdem-se nos meandros da vida em igreja, sentem-se ser usadas por Deus em dons e sabem que a sua vida não está completamente acertada com Ele, ou então vêm pessoas de má índole a serem usadas em dons. O mais grave ainda é quando muitos são louvados pela manifestação de dons, quer seja por outros, ou trazendo exaltação a si próprios, tantas vezes disfarçando com falsa modéstia. Há ainda aqueles que dizem possuir um dom dado por Deus, quando é claro que estes são sempre de Deus, que os distribui quando, onde e para o que forem necessários, nunca dando um dom definitivamente a alguém. Pode qualquer um afirmar como posso declarar tal coisa tão taxativamente, e a resposta é muito simples: Deus não entrega, reparte ou distribui a sua glória a ninguém.
Mas vamos tentar trazer também um pouco de luz às situações anteriores. Quando alguém é usado por Deus em dons e sabe que a sua vida espiritual não está muito saudável: infelizmente esta é uma situação muito comum, e muitos crentes por falta de ensino correcto, perecem; é imperativo dar a entender duas coisas – os dons são de Deus que usa quem quer, quando quer, como quer e para o que quer – o ser usado em dons não significa que a vida espiritual de tal pessoa afinal já está bem, ao contrário do que se faz nas igrejas, onde quem é usado em dons é olhado como “super espiritual”; mas por outro lado também é importante dizer que vida espiritual sempre e totalmente correcta ninguém tem, senão já estaríamos no céu, e que ser usado é um privilégio de ser crente, que falha, cai, peca, mas arrepende-se e volta atrás. A conclusão a tirar aqui é que o ser usado em dons é dado aos crentes, não para medir a sua espiritualidade, ou aferir da qualidade da sua vida com Deus, mas sim uma dádiva, Deus quer usar, porque há uma necessidade. Por isso crente que é usado em dons é igual aos outros, com altos e baixos, fraquezas e fortalezas, que apenas se dispõe e Deus usa.
Quanto há situação em que alguém vê uma pessoa de má índole ser usada em dons espirituais, há mais alguma coisa a dizer. Em primeiro lugar há a questão do julgamento: está outro em posição de julgar da índole ou da vida espiritual do seu irmão. Atenção, conforme nos alerta a Palavra às traves do nosso olho, enquanto distraidamente, e tantas vezes até alegremente, apontamos para o argueiro, ou cisco, numa linguagem mais corrente, que está no olho do nosso próximo. Normalmente quando julgamos alguém estamos a fazer asneira, porque normalmente não estamos na posse de todos os dados para julgarmos.
Não sou defensor da ideia de que não devemos julgar, conforme tantas vezes ouvimos nas igrejas. A Palavra de Deus ensina-nos a julgar-mos todas as coisas e retermos o bem. Aqui reside normalmente o nosso primeiro erro. Fazemos julgamentos de tudo, tornamo-nos até cínicos e arrogantes, de uma superioridade absurda, quase “divina”, e depois guardamos tudo, o bom e o mau. Por vezes fazemos até pior, armazenamos apenas o mau, apenas para termos o que arremessar futuramente, e esquecemos o bom. É como a mais que batida figura do peixe, é guardar a espinha e deitar fora o peixe. Isto é errado e é pecado. Claro, que isto não sirva de desculpa para assimilarmos e até compactuarmos com heresias graves que se infiltraram e estão a infiltrar no seio da Igreja, essas devem ser combatidas, mas não com arrogância, contrapondo sim a verdade com a verdade, que é a Palavra. Adiante. Voltemos então ao ponto de partida: defendo que devemos de julgar tudo e reter apenas o bem, porém a Bíblia nos deixa uma advertência para a nossa vida acerca de julgamentos – a forma como julgamos os outros é forma como vamos ser julgados. Por isso cuidado. Ao julgarmos os outros, devemos pensar que na medida em que o fizermos, devemos estar dispostos a acarretar com um julgamento na mesma medida no futuro, dos outros e de Deus, em relação a nós.
Mas ainda assim vamos arriscar avançar e reflectir acerca de porque é que nas igrejas há pessoas de má índole que são usadas em dons espirituais: e a resposta é praticamente igual à da situação anterior - trata-se de um dom, uma dádiva, uma prerrogativa divina. E da mesma forma que na situação anterior, o facto de essas pessoas serem usadas por Deus em dons, não faz delas pessoas especiais de particular autoridade espiritual.
Quero ainda realçar o facto de que existem muitos homens que se exaltam ou são por outros exaltados pela manifestação de dons espirituais nas suas vidas. Isto é pecado. Infelizmente esta é a realidade, por muito que não se goste da palavra pecado, porque esse acto não passa de idolatria e é estar a dar a glória a outro que não ao dono do dom. Essa pessoa deve ser ainda mais humildade, mas uma humildade de vida vista e visível, credível, e não de alguém que diz estar tão acima das coisas da terra que as pode usufruir na totalidade, como acontece com alguns “gurus” hindus, e infelizmente não apenas hindus. A razão de ser de tal humildade é porque essa pessoa entende que nada tem e esses dons são totalmente de Deus e nada, mesmo nada, seus.
Estamos no domínio do sagrado, do santo em que o sobrenatural é uma realidade que vaga solta no meio de pessoas, que embora espirituais, pela sua fé, pela sua crença, ainda estão, no entanto, agarradas a corpos físicos e limitados, com dificuldades em discernir tantas coisas, em entender onde Deus se move. Tantas vezes se ouve com tanto alarido, “eis o senhor ali, eis o Senhor acolá”, conforme está escrito que seria um dos sinais dos últimos tempos. É verdade que é difícil, mas creio que Paulo, neste capítulo em que define amor, e a sua importância na vivência cristã, esclarecem a forma melhor de discernir aquando da manifestação de dons e maravilhas sobrenaturais, o que vem e é Deus e o que não vem, e é sim da carne ou do maligno. Paulo fala de dons de profecia, fé, ciência, etc., não vamos repetir a lista, e após cada dom, o apóstolo diz que se não houvesse nele o amor, ou a caridade, nada seria. As línguas sem amor são como metal que ressoa e como o sino que tine, ou como o bronze que ressoa e o címbalo que tine; a profecia, os mistérios, a ciência e até a fé, a fé vejam só de que tantos fazem deus, ter fé na fé, como alguns ensinam, mesmo essa, sem amor nada seria, ou noutras traduções o apóstolo diz “não presto para nada”. NADA. Onde está então o valor? Será nos dons?
A conclusão que podemos retirar desta primeira definição de amor de I Coríntios capítulo 13, é que o apóstolo considerava o amor como maior e mais importante que as línguas, a ciência, os mistérios, a fé, enfim que os “dons do Espírito Santo”. E aqui reside também a resposta à questão que ficou pairando no ar no parágrafo anterior: como discernir se uma manifestação espiritual é e vem de Deus? A resposta é esta: Paulo considerava, e assim por dizer que ele foi inspirado pelo Espírito Santo para escrever o que escreveu, que o fruto do Espírito Santo é maior e mais importante que o dom do Espírito Santo. Sim, porque o amor é o primeiro e principal elemento desse belo fruto, que o mesmo Espírito que esteve em Cristo, produz naquele em que este habita, e para o confirmar vamos então a Gálatas capítulo cinco, versículos 22 e 23:
Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio. Contra estas coisas não existe lei.
Bíblia de Jerusalém itálico meu
O fruto é maior que o dom, o fruto, na vida do cristão, é mais importante que o dom, e, o dom é e vem de Deus quando é manifesto numa vida que demonstra a produção e o aperfeiçoamento em cada dia do fruto, em detrimento da exaltação e exacerbação do dom. Sei que esta afirmação pode até ser polémica, mas é conclusão óbvia, simples e directa do texto que estamos a estudar. Por muito que alguns não gostem, principalmente os pregadores de milagres, os que gostam é de grandes algazarras com gente a gritar e pessoas a cair, a realidade é que o nosso Deus deu o fruto, e por existir o fruto concede o dom para o que for útil. O Senhor não traz o dom para que, pela sua manifestação, se produza o fruto.
OBRAS E AMOR
Vamos avançar e olhar agora para a afirmação seguinte do texto em estudo:
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.
Almeida Revista e Corrigida grifo meu
O apóstolo Paulo foi talvez o homem mais esclarecido do primitivo cristianismo, ele compreendeu muito bem a dicotomia eterna que sempre existiu, que existia no seu tempo, e creio que no fundo ele sabia, que continuaria a existir, entre a salvação por obras ou sem as obras, por graça, por dádiva apenas. O apóstolo percebeu então que a mentalidade judaica, muito arraigada à ideia de que quem peca tinha que entregar um sacrifício, tinha de pagar, em vez de entenderem que o pobre animal é que suportava o preço do pecado com a sua vida, muito ligada ao olho por olho, dente por dente, dificilmente iria entender que, não só a salvação era pela graça, como também cada gesto nosso na direcção do próximo não deveria ser visto como um acto religioso, de obrigação meramente religiosa, conforme os preceitos da lei - chegando mesmo os religiosos fariseus, a fazerem tocar uma trombeta diante de si de cada vez que iam dar uma esmola, ou de cada vez que oravam por alguém no meio da rua, o faziam alto e em bom som para que todos vissem e ouvissem como eram espirituais, virtuosos e bondosos - mas sim um acto movido e motivado pelo amor.
Sim, o mesmo amor que motivava o Deus justo e severo do Antigo Testamento, a ter enviado o Messias sofredor, em vez de enviar o Messias guerreiro, militar, que iria restaurar Israel ao grupo das nações livres e grandiosas - os judeus ao longo da sua história já tinham até aquela altura aprendido a não ser idólatras, mas ainda não tinham aprendido a ser humildes – para apenas pela fé neste, perdoar todos os pecados, sem necessidade de nada mais.
Claro que qualquer mente religiosa não entende isto. Certa vez ouvi esta frase numa pregação na igreja e creio que é muito verdade: “o homem é religioso porque é um ser com uma natureza espiritual, foi criado à imagem de Deus, e, como não tem Deus inventa, inventa e surge a religião”.
É difícil entender que um Deus tão grande possa esquecer o pecado, motivado apenas pelo amor e fazer a humanidade entrar numa nova era, apenas porque o seu filho morreu e agora todos o que escolhem ter fé no seu filho, na sua obra e pedirem perdão pelos seus pecados, sem mais trabalho, sem mais sacrifício, sem nada mais que seja que uma entrega total da vida a Jesus, são também tornados filhos de Deus. Mas isto não é justiça, não é nenhuma outra coisa senão AMOR. Grande e sublime amor. A maior e mais excelente demonstração de amor.
Israel tem, razão, o Messias triunfante virá, mas primeiro veio o Messias sofredor, mostrando o coração amoroso do Pai. Creio ser aqui deveras importante olhar para, o que eu acho ser um dos mais maravilhosos e reveladores trechos da Bíblia, onde em três Salmos, três cânticos diferentes, mas que no entanto, nas nossas Bíblias se encontram seguidos, creio que não por acaso, mostram as três facetas do nosso Jesus: o Salmo 22 – o Messias sofredor; o salmo 23 – que mostra o Messias do nosso tempo, o Bom Pastor; e o Salmo 24 – que mostra o Messias triunfante, o Senhor dos Exércitos, o rei da glória, o Jesus que virá.
Salmo 22
Ao director do coro. Pela melodia “corça da aurora”. Salmo da colecção de Davi.
Meu Deus, meu deus, por que me abandonaste?
Por que te manténs distante,
quando eu grito por socorro?
Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes;
durante a noite, e não tenho sossego.
E contudo tu reinas no santuário,
como glória de Israel.
Os nossos antepassados confiaram em ti;
confiaram em ti e tu os livraste.
Pediram-te ajuda e escaparam do perigo;
confiaram em ti e não ficaram desiludidos.
Mas eu já não sou homem: sou um verme, desprezado por todos e escarnecido.
Os que me vêem zombam de ti;
fazem troça e abanam a cabeça, dizendo:
“Entregou-se ao senhor, ele que o livre;
que o salve, já que o ama.”
Tu cuidaste de mim desde o ventre de minha mãe
e puseste-me em segurança nos eus braços.
Antes de eu nascer fui entregue aos teus cuidados;
desde o ventre de minha mãe, tu és o meu deus.
Não te afastes de mim, porque a angústia vai chegar
e não tenho quem me ajude.
Muito inimigos rodeiam-me como touros;
cercam-me como touros ferozes da terra de Basã.
Como leões que rugem
abrem as suas bocas para me despedaçar.
Sou como água que se derrama;
todos os meus ossos se desconjuntam.
O meu coração, tal como cera,
derrete-se dentro de mim.
A minha garganta secou-se como barro cozido
e a minha língua pegou-se ao céu da boca.
Tu abandonaste-me à beira da sepultura.
Um bando de malfeitores me cercou como cães;
rasgaram-me as mãos e os pés.
Poderia contar todos os meus ossos;
os meus inimigos olham para mim e pasmam.
Repartem entre si a minha roupa e lançam sortes sobre ela.
Mas tu, Senhor, não te afastes de mim!
És a minha força! Vem depressa em meu auxílio!
Livra-me de morrer à espada;
não deixes que os cães me matem.
Livra-me da boca desse leões;
defende-me dos chifres desses touros.
Contarei, então, ao meu povo o que fizeste
e louvar-te-ei assim no meio da assembleia:
“Louvem o Senhor, todos os que crêem nele!
Glorifiquem-no todos os descendentes de Jacob!
Respeitem-no todos os descendentes de Israel!
Porque ele não despreza nem desdenha
dos sofrimentos dos pobres; nem desvia deles o olhar.
Ele ouve-os quando lhe pedem auxílio.”
Sem cessar te repetirei o meu louvor,
no meio da grande assembleia.
Na presença daqueles que te adoram,
cumprirei as promessas que te fiz.
Os pobres comerão até se fartarem;
os que buscam o senhor louvá-lo-ão.
Que eles vivam sempre bem!
Todas as nações se lembrarão do Senhor;
de toda a parte do mundo se voltarão para ele.
Todas as raças o adorarão.
De facto, o senhor é rei,
é ele quem governa as nações.
Adorem-no os que já desceram à sepultura;
todos os mortais se curvem na sua presença,
pois ele é quem dá a vida.
As gerações futuras servirão o senhor
e falarão dele à geração seguinte;
irão contar aos vindouros
aquilo que o Senhor fez, para salvar o seu povo.
Salmo 23
Salmo da colecção de David.
O Senhor é o meu pastor: nada me falta.
Em verdes pastos me faz descansar
e conduz-me a lugares de águas tranquilas.
Conforta a minha alma
e leva-me por caminhos rectos, honrando o seu bom nome.
Ainda que eu atravesse o mais escuro vale,
não terei receio de nada,
porque tu, Senhor, estás comigo.
A tua vara e o teu cajado dão-me segurança.
Preparaste-me um banquete à frente dos meus inimigos.
Recebeste-me com todas as honras
e encheste a minha taça até transbordar.
De facto, a tua bondade e o teu amor
acompanham-me ao longo da minha vida.
E na tua casa, Senhor, morarei para sempre.
Salmo 24
Salmo da colecção de David.
O mundo pertence ao Senhor, com tudo o que nele existe;
a terra e todos os que nela vivem são dele.
Ele edificou-a sobre as águas dos mares,
criou-a sobre as correntes do oceano.
Quem será digno de subir ao monte do Senhor?
Quem poderá apresentar-se no seu santo templo?
Só aqueles que são honestos em actos e pensamentos,
aqueles que não elevam o pensamento para os ídolos,
nem fazem promessas a falsos deuses.
A esses, o Senhor, seu Deus salvador,
abençoará e recompensará com generosidade.
Esses são os que buscam o Senhor,
que procuram a presença do Deus de Jacob.
Abram-se, ó portas eternas!
Fiquem abertas de par em par
que vai entrar o rei glorioso!
Quem é este rei glorioso?
É o Senhor, forte e poderoso,
o Senhor vitorioso nas batalhas.
Abram-se, ó portas eternas!
Fiquem abertas de par em par
que vai entrar o rei glorioso!
Quem é este rei glorioso?
É o Senhor, Deus do universo!
É ele o rei glorioso.
Bíblia “A Boa Nova”
Claro que Paulo conhecia bem estas palavras e, com certeza, no seu coração, entendia que a dificuldade dos judeus em deixar de olhar para Deus como severo, e vê-Lo como o Senhor misericordioso, movido pelo amor, dá a vida do seu filho, o primogénito, o dominador, de toda a criação, seria também a dificuldade daqueles que agora aceitavam “O Caminho”, fossem judeus ou gentios. Mas creio ainda que o maior temor do apóstolo seria que entre os cristãos entrasse o fermento dos fariseus, o “espírito” (atenção que quando falo aqui de espírito, não estou a falar de um ser espiritual, mas sim de uma atitude mental e de coração) da religião, substituindo a prática com sentido instrutivo, pela prática mecânica, substituindo a atitude do coração como dando sentido à prática, pela prática como tendo todo o valor. Daí que no texto em análise, Paulo falar da prática – as boas obras – como tendo apenas valor baseado no fruto – o amor.
Tornou-se bem claro na mente do apóstolo que o que motivava Deus nesta busca pelo homem perdido não são as obras. Nada que o ser humano pudesse fazer iria levar Deus a fazer a entrega do seu filho, logo não são as obras as motivadoras da graça. Olhou para o sacrifício e viu a graça de Deus, mas por trás Paulo, o imitador de Cristo, viu o amor como o grande motivador para as acções tremendas do nosso Deus. A Palavra de Deus ensina-nos isso mesmo.
(Estudo não concluído)
Sérgio Bernardo
Deus é amor. Esta declaração bíblica acerca da pessoa de Deus é fantástica, tanto mais que é rara em toda a Palavra de Deus. São poucas as vezes que surgem afirmações taxativas e simples acerca de Deus. Poucas vezes existem declarações tão vincadas, de simples e directas, acerca de como definir Deus, e é isso que torna quase extraordinária esta afirmação.
Contudo ao mesmo tempo que é simples e directa, as suas consequências são incríveis, e ao pensarmos um pouco mais nisso mesmo, podem até ser desafiadoras colocando os alicerces do que chamamos “vida cristã” em causa.
O amor como característica pessoal de Deus teve uma enorme influência em tudo o que se chama história da humanidade. Foi o grande factor de diferença entre uma história em que, por opção do Homem e afastamento deste, Deus deixaria de ter qualquer intervenção, e uma história, como acontece, em que Deus aparentemente está longe, mas está a encaminhar-se no sentido que Ele determinou.
O amor, por ser tão forte e intenso e profundo, torna-se por isso mesmo difícil de definir, então, a nossa sociedade, recheada de capacidades técnicas, sedenta de definição e ansiando por encaixotar e catalogar cada pedaço das nossas vidas, incapaz, como dito anteriormente, de definir esta poderosa força que é o amor, diluiu o seu sentido, trazendo-lha uma perca de força e de valor, contribuindo para o cinismo de então se viver numa época em que tudo é amor, mas em nada há amor e por nada se tem amor.
Será que sexo é amor? Ou talvez a paixão o seja? Será que o amor de mãe ainda existe? Será que se pode matar por amor? A amizade é um relacionamento de amor? Mas afinal o que é o amor?
Perante esta pergunta parece que encontramos a melhor resposta na Bíblia. O apóstolo Paulo na primeira carta aos Coríntios, no capítulo 13, dá aquela que será a melhor definição de amor que podemos encontrar em toda a literatura mundial. Paulo define o amor pela sua importância para a vida, principalmente, no contexto em que escreve, para a vida do cristão. Depois avança na sua definição mostrando o amor por duas características centrais: o ser sofredor e benigno. Claro que Paulo estava também com dificuldades em definir o que era o amor, mas no meio de uma carta tão cheia de conselhos e de ajudas, de resposta a dúvidas de uma igreja, com qualidades e virtudes, como a de Corinto, Paulo parou olhou de frente e escreveu esta definição de amor.
Claro que podemos falar da intervenção do Espírito Santo no processo de escrita desta carta que entrou no Cânon, mas por vezes pergunto-me se os escritores sagrados, e neste caso concreto Paulo, estariam, ou estaria consciente de que este texto, como muitos outros por si produzidos seriam reconhecidos como tendo sido inspirados por Deus, colocados lado a lado com os textos que desde muito novo aprendeu a amar e a admirar, onde a história e os feitos de Deus pelo seu povo ao longo dos tempos estavam descritos. Não sei o que acharia Paulo, mas ao ler este texto de I Coríntios 13, sinto a urgência de um servo que deseja comunicar aquilo que da sua alma brota abundantemente mas que por vezes se torna dão difícil de explicar aos outros. Paulo sentia um amor tremendo, olhava para o seu Deus e sentia o amor ainda maior, e tentou colocar em palavras limitadas e humanas o que sentia, de si e do seu Deus. Por isso, após falar do amor como sofredor e benigno, Paulo continua definindo o amor por aquilo que ele não é. Parece estranho definir o amor como não sendo invejoso, será que é possível alguém dizer que ama e ser invejoso? É, infelizmente. Não nos esquecemos que Paulo estava a escrever para uma igreja. “Felizmente” foi só em Corinto que os crentes diziam que se amavam e eram invejosos uns em relação aos outros. Por aqui me fico porque acho que as palavras de Paulo se tornam assim evidentemente úteis e certas.
Após isso, Paulo faz duas declarações muito fortes em jeito de conclusão, mas ao mesmo tempo abrindo caminho para o que vem a seguir. Infelizmente, estas duas afirmações estão nas nossas Bíblias em versículos diferentes em vez de estarem no mesmo, estamos a falar de quando nos versículos sete e oito está escrito o amor tudo sofre – repetindo a declaração inicial de que o amor é sofredor –, tudo crê, tudo espera, tudo suporta e nunca falha.
Em seguida Paulo entra numa dimensão que nos parece um tanto estranha e até despropositada, em que de repente fala de profecias que vão deixar de existir, serão aniquiladas, na expressão bíblica, mas creio que vem alguma luz sobre esta parte no versículo 10, quando está escrito que quando vier o que é perfeito, o que é em parte desaparecerá. Creio que Paulo está a falar do gozo pleno do amor no futuro escatológico, demonstrando a influência do amor de Deus no decurso da história humana. Mas vamos ficar por aqui, pois mais para a frente iremos debruçarmo-nos mais acerca deste assunto.
Depois Paulo fala da maturidade, trazendo o assunto do amor maduro e logo após vem de novo o amor futuro da plenitude do gozo da existência eterna na presença de Deus.
Paulo encerra depois esta fantástica definição de amor com uma linda e poderosa afirmação: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade. Estas três, mas a maior destas é o amor”. Interessante Paulo usar o feminino e não o masculino, ao dizer “estas três” em vez de “estes três”, porque normalmente colocaríamos a fé, a esperança e o amor como sentimentos, e portanto usar o masculino. Aparentemente para o apóstolo não são sentimentos, que são passageiros e enganosos, mas sim forças, forças tremendas e poderosas, capazes de mover montanhas, de ultrapassar todas as desilusões e entregarem o mais querido à morte, de levar a uma mudança na história do mundo.
Vamos então viajar um pouco pelo interior do texto bíblico, procurando mais inferências do sentido desta força, que é o amor, buscando esclarecimento entre tanta penumbra, revelando também assim um pouco mais do coração do nosso Deus.
TEXTO BÍBLICO BASE
Vamos aqui reproduzir o texto de I Coríntios 13, segundo diferentes traduções para a língua portuguesa. De alertar que em algumas surge a palavra “caridade”, mas que deve ser interpretada por “amor”.
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.
A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três; mas a maior destas é a caridade.
Almeida Revista e Corrigida
Ainda que eu falasse línguas,
as dos homens e as dos anjos,
se eu não tivesse a caridade,
seria como o bronze que soa
ou como o címbalo que tine.
Ainda que eu tivesse o dom da profecia,
o conhecimento de todos os mistérios
e de toda a ciência,
ainda que tivesse toda a fé,
a ponto de transportar montanhas,
se não tivesse a caridade,
eu nada seria.
Ainda que eu distribuísse
todos os meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
o meu corpo às chamas,
se não tivesse a caridade,
isso nada me adiantaria.
A caridade é paciente,
a caridade é prestativa,
não é invejosa, não se ostenta,
não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça,
mas se regozija com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
A caridade jamais passará.
Quanto às profecias, desaparecerão.
Quanto às línguas, cessarão.
Quanto à ciência, também desaparecerá.
Pois o nosso conhecimento é limitado,
e limitada é a nossa profecia.
Mas, quando vier a perfeição,
o que é limitado desaparecerá.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Depois que me tornei homem,
fiz desaparecer o que era próprio
da criança.
Agora vemos em espelho
e de maneira confusa,
mas, depois, veremos face a face.
Agora o meu conhecimento é limitado,
mas, depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora, portanto, permanecem a fé,
esperança, caridade,
estas três coisas.
A maior delas, porém, é a caridade.
Bíblia de Jerusalém
Ainda que eu seja capaz de falar todas as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, as minhas palavras são como o badalar de um sino ou o barulho de um chocalho. Ainda que eu tenha o dom de falar em nome de Deus e possa conhecer os seus planos e saber tudo; ainda que eu tenha uma fé capaz de transportar montanhas, se não tiver amor, não presto para nada. Ainda que eu dê em esmolas tudo o que é meu; ainda que me deixe queimar vivo, se não tiver amor, isso de nada me serve.
O amor é paciente e prestável. Não é invejoso. Não se envaidece nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos nem é egoísta. Não se irrita nem pensa mal. O amor não se alegra com uma injustiça causada a alguém, mas alegra-se com a verdade. O amor suporta tudo, acredita sempre, espera sempre e sofre com paciência. O amor é eterno. As profecias desaparecem; as línguas acabam-se, a ciência passa. Pois, tanto as nossas profecias como a nossa ciência são imperfeitas. Quando chegar aquilo que é perfeito, tudo o que é imperfeito desaparece. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Depois, tornei-me adulto e deixei o modo de ser de criança.
Agora, vemos as coisas como num espelho e de maneira confusa. Depois, vemo-las frente a frente. Agora, o meu conhecimento é imperfeito, mas depois vou conhecer como Deus me conhece a mim. Agora, existem três coisas: fé, esperança e amor. Mas a mais importante é o amor.
Bíblia “A Boa Nova”
Se eu tivesse o dom de falar línguas que não tivesse aprendido, e até mesmo as línguas todas do céu e da terra, mas não fosse capaz de amar os outros, não seria mais do que um instrumento de fazer barulho. Se eu tivesse o dom de profetizar e soubesse, por inspiração divina, tudo o que viesse a acontecer no futuro, e, enfim, se eu soubesse tudo sobre todas as coisas, mas não soubesse amar os outros, de que me serviria isso? E até mesmo que tivesse fé de forma a poder falar a uma montanha e fazê-la deslocar-se, isso não teria valor algum sem o amor. Ainda que desse tudo aos pobres, e deixasse que me queimassem vivo por pregar o Evangelho, mas se não amasse os outros, tudo seria inútil.
O amor é paciente e bondoso, nunca é invejoso nem ciumento, nem presunçoso, nem arrogante, nem grosseiro. O amor não exige que se faça o que ele quer. Não é irritadiço, e dificilmente suspeita do mal que os outros lhe possam fazer. Nunca fica satisfeito quando se pratica a injustiça, mas alegra-se quando a verdade triunfa. Quando amamos alguém somos leais para com ele custe o que custar. Acreditamos nele e esperamos dele sempre o melhor, mantendo-nos decididamente em sua defesa.
Todos os dons e poderes especiais que vêm de Deus terminarão um dia, porém, o amor há de sempre continuar. Um dia, tanto a profecia, como o falar línguas desconhecidas, e a especial sabedoria espiritual, todos esses dons desaparecerão. Nós agora sabemos muito pouco, mesmo com a ajuda de todos esses dons especiais; e até a pregação mais inspirada é ainda muito imperfeita. Mas quando a nossa vida se tiver tornado perfeita, completa, então cessará a necessidade desses dons especiais, aliás insuficientes que desaparecerão.
É como quando eu era criança: falava, pensava, raciocinava como uma criança. Mas quando me tornei homem deixei as coisas de crianças. Da mesma maneira, nós agora só podemos ver e compreender um pouco das coisas de Deus; é como se estivéssemos a ver um reflexo num espelho de má qualidade; mas um dia virá em que veremos de uma forma completa, face a face. Tudo quanto sei agora é obscuro e confuso, mas depois verei tudo com clareza, e tão claramente como Deus está vendo o interior do meu coração.
Há três coisas que hão de perdurar: a fé, a esperança e o amor; e destas três a maior é o amor.
O Livro
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa, ou como címbalo que tine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que possua a fé em plenitude, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que distribua todos os meus bens em esmola e entregue o meu corpo a fim de ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita.
A caridade é paciente, a caridade é benigna, não é invejosa; a caridade não se ufana, não se ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
A caridade nunca acabará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão e a ciência findará. Porque a nossa ciência é imperfeita e a nossa profecia também é imperfeita. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será abolido. No tempo em que eu erra criança, falava como criança, sentia como criança, raciocinava como criança; mas quando me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conheço de maneira imperfeita; Então, conhecerei exactamente, como também sou conhecido.
Agora subsistem estas três: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é caridade.
Tradução dos Padres Capuchinhos
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar
A IMPORTÂNCIA DO AMOR
Vamos agora começar então a nossa viagem pela definição paulina de amor, iniciando por olhar para a primeira declaração que o apóstolo faz: “Ainda que eu falasse”...
Como será que alguém pode olhar para este texto e não entender que Paulo considerava como algo de comum para qualquer cristão, para qualquer membro da igreja de Corinto, a quem ele se dirigia, a capacidade, ou melhor, a característica, ou melhor ainda, o dom de falar línguas, sejam dos homens ou dos anjos. Se alguém, por indouto ser, olhar para a expressão “línguas dos homens” e pensar que Paulo estava falando de ser um poliglota, certamente que entenderá que ele está falando de outras coisas ao dizer “dos anjos”. É então claro para este homem de Deus, que um ser humano pode falar línguas de homens e de anjos. Mas como pode ser isso?
Sem querer entrar em grandes discussões sobre o baptismo com o Espírito Santo e o enchimento que esse acontecimento traz, creio que se torna deveras importante ver o valor e até o comum que isso era entre os crentes primitivos, e não apenas entre os que estavam no cenáculo no dia de pentecostes, ou até na casa de Cornélio e noutros eventos, em que a Bíblia descreve, como tendo ocorrido o derramamento do Espírito, mas em toda e qualquer igreja e com todo e qualquer crente. Para Paulo é comum e normal. Portanto assim para nós também deve ser. Sim porque estamos olhando para um homem que teve a ousadia, e a autoridade, para um dia dizer “sede meu imitadores como também eu sou de Cristo”. Não são muitos aqueles que ao longo de toda a história do cristianismo, mesmo entre os primitivos apóstolos, podiam dizer tal coisa. E mais importante ainda, Paulo o escreveu, nunca foi desmentido, nem mesmo pelos apóstolos, sempre foi querido, e o Espírito Santo ainda mostrou ter sido o inspirador de tais palavras, ao ponto dessas terem sido incluídas no cânon neotestamentário. Maravilhoso não é.
Para Paulo era importante e era comum, pois ele escolhe este dom para começar a falar acerca de amor. Claro que ele vai buscar outros dons:
Dom das línguas – “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos”;
Dom da profecia - “E ainda que tivesse o dom da profecia”;
Dom da palavra da sabedoria – “e conhecesse todos os mistérios”;
Dom da palavra da ciência – “e toda a ciência”;
Dom da fé – “e ainda que tivesse toda a fé”.
Os dons espirituais são algo de maravilhoso e edificante para a Igreja, que Deus nos deu e nos dá, os dons espirituais são belas manifestações físicas e evidentes da presença do Senhor, os dons são lindas e refrescantes operações do Espírito Santo. Têm objectivos concretos, e, pegando na lista de dons existente em I Coríntios capítulo 12, podemos dividi-los em três grupos: o primeiro grupo são os dons de ensino – dom da palavra da sabedoria, dom da palavra da ciência; o segundo grupo são os dons de operação ou de actuação – dom de fé, dom de curar, dom da operação de maravilhas; e o terceiro e último grupo são os dons de revelação – dom da profecia, dom de discernir os espíritos, dom da variedade de línguas, dom da interpretação das línguas. Existem outras listas de dons, e autores que acrescentam os ministérios que Deus distribui à lista dos dons espirituais, embora não se faça aqui esse exercício, é interessante observar que todos esses “dons” se podem incluir num destes grupos anteriormente descritos. É necessário ressalvar que esta é uma divisão pessoal, de interpretação e estudo, sem qualquer outro tipo de consequências ou conclusões a tirar.
Perante os dons que Paulo escolheu para o seu texto, questionei-me acerca do porquê da escolha. Então lembrei-me das palavras de Jesus em Mateus capítulo sete, versículos 21 a 23.
Nem todo o que me diz : Senhor, Senhor! Entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demónios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.
Almeida Revista e Corrigida itálico meu
Nesta passagem podemos incluir os dons espirituais usados por Paulo. Mas a primeira e mais imediata pergunta que me surge é esta: Como pode alguém que pratica a iniquidade, ser utilizado por Deus em dons? Sim podemos concluir que eram dons de Deus, uma vez que não foram desmentidos, não podemos concluir, como alguns fazem, que estas pessoas eram usadas pelo Diabo para imitar os dons de Deus. Essa é uma extrapolação exterior ao texto, que não o permite de todo.
Mas a resposta à pergunta feita anteriormente reside na graça de Deus. A estas operações maravilhosas Paulo, e a Palavra de Deus, chama de dons. Dons são dádivas, ou será que já nos esquecemos que a salvação não vem de nós é DOM de Deus. Dom é dádiva imerecida, é entrega total, é depósito sem pagamento, como diz a Bíblia em Isaías capítulo 55, versículos um a 11:
Ah! Todos que tendes sede, vinde à água.
Vós, os que não tendes dinheiro, vinde,
comprai e comei; comprai, sem dinheiro
e sem pagar, vinho e leite.
Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão,
e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer?
Ouvi-me com toda a atenção e comei o que é bom;
haveis de deleitar-vos com manjares revigorantes.
Escutai-me e vinde a mim,
ouvi-me e haveis de viver.
Farei convosco uma aliança eterna,
assegurando-vos as graças prometidas a Davi.
Com efeito, eu o pus como testemunha aos povos,
como regente e comandante de povos.
Assim, tu chamarás por uma nação que não conheces,
sim, uma nação que não te conhece acorrerá a ti,
por causa de Iahweh teu Deus, à busca do Santo de Israel,
porque ele te cobriu de esplendor.
Procurai a Iahweh enquanto pode ser achado,
invocai-o enquanto está perto.
Abandone o ímpio o seu caminho,
e o homem mau os seus pensamentos,
e volte para Iahweh, pois terá compaixão dele,
e para o nosso Deus, porque é rico em perdão.
Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos,
e os vossos caminhos não são os meus caminhos,
oráculo de Iahweh.
Quanto os céus estão acima da terra,
Tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos,
E os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos.
Como a chuva e a neve descem do céu
e para lá não voltam, sem terem regado a terra,
tornando-a fecunda e fazendo-a germinar,
dando semente ao semeador e pão ao que come,
tal ocorre coma apalavra que sai da minha boca:
ela não torna a mim sem fruto;
antes cumpre a minha vontade
e assegura o êxito da missão para a qual a enviei.
Bíblia de Jerusalém
Creio que esta passagem é por demais grandiosa e esclarecedora acerca da natureza das dádivas de Deus. Também estes “dons do Espírito” são apenas ofertas entregues, ou melhor dizendo, distribuídas aos crentes para aquilo que Deus, nos seus mais “altos caminhos e pensamentos” deseja fazer. É verdade que as perguntas parecem se avolumar, os porquês parecem não ter fim, mas pensar que Deus tudo dá de graça e que os seus pensamentos estão muito além do que podemos até compreender! Se ao homem natural isto pode trazer insegurança e parecer até loucura, para aquele que tenta discernir as coisas com um olhar mais profundo e espiritual, as sensações que afloram ao pensamento são precisamente as inversas. Segurança, certeza de que Deus está no controle, assunção de que tudo tem um rumo, um sentido e um propósito, que agora podemos não o compreender e até ver, mas há propósito divino.
A dádiva dos dons de Deus é preciosa, mas Paulo nos alerta que o que dá realmente valor a esses dons, não é uma vida que tem de ser certa e até com um bom testemunho. Jesus disse que muitos que até manifestam dons, não são conhecidos de Cristo, clamam Senhor, Senhor mas estes não são filhos. Os dons só fazem sentido e têm valor se provêm de uma vida onde há fruto do Espírito antes de haver dom. Por isso tantas pessoas se confundem e perdem-se nos meandros da vida em igreja, sentem-se ser usadas por Deus em dons e sabem que a sua vida não está completamente acertada com Ele, ou então vêm pessoas de má índole a serem usadas em dons. O mais grave ainda é quando muitos são louvados pela manifestação de dons, quer seja por outros, ou trazendo exaltação a si próprios, tantas vezes disfarçando com falsa modéstia. Há ainda aqueles que dizem possuir um dom dado por Deus, quando é claro que estes são sempre de Deus, que os distribui quando, onde e para o que forem necessários, nunca dando um dom definitivamente a alguém. Pode qualquer um afirmar como posso declarar tal coisa tão taxativamente, e a resposta é muito simples: Deus não entrega, reparte ou distribui a sua glória a ninguém.
Mas vamos tentar trazer também um pouco de luz às situações anteriores. Quando alguém é usado por Deus em dons e sabe que a sua vida espiritual não está muito saudável: infelizmente esta é uma situação muito comum, e muitos crentes por falta de ensino correcto, perecem; é imperativo dar a entender duas coisas – os dons são de Deus que usa quem quer, quando quer, como quer e para o que quer – o ser usado em dons não significa que a vida espiritual de tal pessoa afinal já está bem, ao contrário do que se faz nas igrejas, onde quem é usado em dons é olhado como “super espiritual”; mas por outro lado também é importante dizer que vida espiritual sempre e totalmente correcta ninguém tem, senão já estaríamos no céu, e que ser usado é um privilégio de ser crente, que falha, cai, peca, mas arrepende-se e volta atrás. A conclusão a tirar aqui é que o ser usado em dons é dado aos crentes, não para medir a sua espiritualidade, ou aferir da qualidade da sua vida com Deus, mas sim uma dádiva, Deus quer usar, porque há uma necessidade. Por isso crente que é usado em dons é igual aos outros, com altos e baixos, fraquezas e fortalezas, que apenas se dispõe e Deus usa.
Quanto há situação em que alguém vê uma pessoa de má índole ser usada em dons espirituais, há mais alguma coisa a dizer. Em primeiro lugar há a questão do julgamento: está outro em posição de julgar da índole ou da vida espiritual do seu irmão. Atenção, conforme nos alerta a Palavra às traves do nosso olho, enquanto distraidamente, e tantas vezes até alegremente, apontamos para o argueiro, ou cisco, numa linguagem mais corrente, que está no olho do nosso próximo. Normalmente quando julgamos alguém estamos a fazer asneira, porque normalmente não estamos na posse de todos os dados para julgarmos.
Não sou defensor da ideia de que não devemos julgar, conforme tantas vezes ouvimos nas igrejas. A Palavra de Deus ensina-nos a julgar-mos todas as coisas e retermos o bem. Aqui reside normalmente o nosso primeiro erro. Fazemos julgamentos de tudo, tornamo-nos até cínicos e arrogantes, de uma superioridade absurda, quase “divina”, e depois guardamos tudo, o bom e o mau. Por vezes fazemos até pior, armazenamos apenas o mau, apenas para termos o que arremessar futuramente, e esquecemos o bom. É como a mais que batida figura do peixe, é guardar a espinha e deitar fora o peixe. Isto é errado e é pecado. Claro, que isto não sirva de desculpa para assimilarmos e até compactuarmos com heresias graves que se infiltraram e estão a infiltrar no seio da Igreja, essas devem ser combatidas, mas não com arrogância, contrapondo sim a verdade com a verdade, que é a Palavra. Adiante. Voltemos então ao ponto de partida: defendo que devemos de julgar tudo e reter apenas o bem, porém a Bíblia nos deixa uma advertência para a nossa vida acerca de julgamentos – a forma como julgamos os outros é forma como vamos ser julgados. Por isso cuidado. Ao julgarmos os outros, devemos pensar que na medida em que o fizermos, devemos estar dispostos a acarretar com um julgamento na mesma medida no futuro, dos outros e de Deus, em relação a nós.
Mas ainda assim vamos arriscar avançar e reflectir acerca de porque é que nas igrejas há pessoas de má índole que são usadas em dons espirituais: e a resposta é praticamente igual à da situação anterior - trata-se de um dom, uma dádiva, uma prerrogativa divina. E da mesma forma que na situação anterior, o facto de essas pessoas serem usadas por Deus em dons, não faz delas pessoas especiais de particular autoridade espiritual.
Quero ainda realçar o facto de que existem muitos homens que se exaltam ou são por outros exaltados pela manifestação de dons espirituais nas suas vidas. Isto é pecado. Infelizmente esta é a realidade, por muito que não se goste da palavra pecado, porque esse acto não passa de idolatria e é estar a dar a glória a outro que não ao dono do dom. Essa pessoa deve ser ainda mais humildade, mas uma humildade de vida vista e visível, credível, e não de alguém que diz estar tão acima das coisas da terra que as pode usufruir na totalidade, como acontece com alguns “gurus” hindus, e infelizmente não apenas hindus. A razão de ser de tal humildade é porque essa pessoa entende que nada tem e esses dons são totalmente de Deus e nada, mesmo nada, seus.
Estamos no domínio do sagrado, do santo em que o sobrenatural é uma realidade que vaga solta no meio de pessoas, que embora espirituais, pela sua fé, pela sua crença, ainda estão, no entanto, agarradas a corpos físicos e limitados, com dificuldades em discernir tantas coisas, em entender onde Deus se move. Tantas vezes se ouve com tanto alarido, “eis o senhor ali, eis o Senhor acolá”, conforme está escrito que seria um dos sinais dos últimos tempos. É verdade que é difícil, mas creio que Paulo, neste capítulo em que define amor, e a sua importância na vivência cristã, esclarecem a forma melhor de discernir aquando da manifestação de dons e maravilhas sobrenaturais, o que vem e é Deus e o que não vem, e é sim da carne ou do maligno. Paulo fala de dons de profecia, fé, ciência, etc., não vamos repetir a lista, e após cada dom, o apóstolo diz que se não houvesse nele o amor, ou a caridade, nada seria. As línguas sem amor são como metal que ressoa e como o sino que tine, ou como o bronze que ressoa e o címbalo que tine; a profecia, os mistérios, a ciência e até a fé, a fé vejam só de que tantos fazem deus, ter fé na fé, como alguns ensinam, mesmo essa, sem amor nada seria, ou noutras traduções o apóstolo diz “não presto para nada”. NADA. Onde está então o valor? Será nos dons?
A conclusão que podemos retirar desta primeira definição de amor de I Coríntios capítulo 13, é que o apóstolo considerava o amor como maior e mais importante que as línguas, a ciência, os mistérios, a fé, enfim que os “dons do Espírito Santo”. E aqui reside também a resposta à questão que ficou pairando no ar no parágrafo anterior: como discernir se uma manifestação espiritual é e vem de Deus? A resposta é esta: Paulo considerava, e assim por dizer que ele foi inspirado pelo Espírito Santo para escrever o que escreveu, que o fruto do Espírito Santo é maior e mais importante que o dom do Espírito Santo. Sim, porque o amor é o primeiro e principal elemento desse belo fruto, que o mesmo Espírito que esteve em Cristo, produz naquele em que este habita, e para o confirmar vamos então a Gálatas capítulo cinco, versículos 22 e 23:
Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio. Contra estas coisas não existe lei.
Bíblia de Jerusalém itálico meu
O fruto é maior que o dom, o fruto, na vida do cristão, é mais importante que o dom, e, o dom é e vem de Deus quando é manifesto numa vida que demonstra a produção e o aperfeiçoamento em cada dia do fruto, em detrimento da exaltação e exacerbação do dom. Sei que esta afirmação pode até ser polémica, mas é conclusão óbvia, simples e directa do texto que estamos a estudar. Por muito que alguns não gostem, principalmente os pregadores de milagres, os que gostam é de grandes algazarras com gente a gritar e pessoas a cair, a realidade é que o nosso Deus deu o fruto, e por existir o fruto concede o dom para o que for útil. O Senhor não traz o dom para que, pela sua manifestação, se produza o fruto.
OBRAS E AMOR
Vamos avançar e olhar agora para a afirmação seguinte do texto em estudo:
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.
Almeida Revista e Corrigida grifo meu
O apóstolo Paulo foi talvez o homem mais esclarecido do primitivo cristianismo, ele compreendeu muito bem a dicotomia eterna que sempre existiu, que existia no seu tempo, e creio que no fundo ele sabia, que continuaria a existir, entre a salvação por obras ou sem as obras, por graça, por dádiva apenas. O apóstolo percebeu então que a mentalidade judaica, muito arraigada à ideia de que quem peca tinha que entregar um sacrifício, tinha de pagar, em vez de entenderem que o pobre animal é que suportava o preço do pecado com a sua vida, muito ligada ao olho por olho, dente por dente, dificilmente iria entender que, não só a salvação era pela graça, como também cada gesto nosso na direcção do próximo não deveria ser visto como um acto religioso, de obrigação meramente religiosa, conforme os preceitos da lei - chegando mesmo os religiosos fariseus, a fazerem tocar uma trombeta diante de si de cada vez que iam dar uma esmola, ou de cada vez que oravam por alguém no meio da rua, o faziam alto e em bom som para que todos vissem e ouvissem como eram espirituais, virtuosos e bondosos - mas sim um acto movido e motivado pelo amor.
Sim, o mesmo amor que motivava o Deus justo e severo do Antigo Testamento, a ter enviado o Messias sofredor, em vez de enviar o Messias guerreiro, militar, que iria restaurar Israel ao grupo das nações livres e grandiosas - os judeus ao longo da sua história já tinham até aquela altura aprendido a não ser idólatras, mas ainda não tinham aprendido a ser humildes – para apenas pela fé neste, perdoar todos os pecados, sem necessidade de nada mais.
Claro que qualquer mente religiosa não entende isto. Certa vez ouvi esta frase numa pregação na igreja e creio que é muito verdade: “o homem é religioso porque é um ser com uma natureza espiritual, foi criado à imagem de Deus, e, como não tem Deus inventa, inventa e surge a religião”.
É difícil entender que um Deus tão grande possa esquecer o pecado, motivado apenas pelo amor e fazer a humanidade entrar numa nova era, apenas porque o seu filho morreu e agora todos o que escolhem ter fé no seu filho, na sua obra e pedirem perdão pelos seus pecados, sem mais trabalho, sem mais sacrifício, sem nada mais que seja que uma entrega total da vida a Jesus, são também tornados filhos de Deus. Mas isto não é justiça, não é nenhuma outra coisa senão AMOR. Grande e sublime amor. A maior e mais excelente demonstração de amor.
Israel tem, razão, o Messias triunfante virá, mas primeiro veio o Messias sofredor, mostrando o coração amoroso do Pai. Creio ser aqui deveras importante olhar para, o que eu acho ser um dos mais maravilhosos e reveladores trechos da Bíblia, onde em três Salmos, três cânticos diferentes, mas que no entanto, nas nossas Bíblias se encontram seguidos, creio que não por acaso, mostram as três facetas do nosso Jesus: o Salmo 22 – o Messias sofredor; o salmo 23 – que mostra o Messias do nosso tempo, o Bom Pastor; e o Salmo 24 – que mostra o Messias triunfante, o Senhor dos Exércitos, o rei da glória, o Jesus que virá.
Salmo 22
Ao director do coro. Pela melodia “corça da aurora”. Salmo da colecção de Davi.
Meu Deus, meu deus, por que me abandonaste?
Por que te manténs distante,
quando eu grito por socorro?
Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes;
durante a noite, e não tenho sossego.
E contudo tu reinas no santuário,
como glória de Israel.
Os nossos antepassados confiaram em ti;
confiaram em ti e tu os livraste.
Pediram-te ajuda e escaparam do perigo;
confiaram em ti e não ficaram desiludidos.
Mas eu já não sou homem: sou um verme, desprezado por todos e escarnecido.
Os que me vêem zombam de ti;
fazem troça e abanam a cabeça, dizendo:
“Entregou-se ao senhor, ele que o livre;
que o salve, já que o ama.”
Tu cuidaste de mim desde o ventre de minha mãe
e puseste-me em segurança nos eus braços.
Antes de eu nascer fui entregue aos teus cuidados;
desde o ventre de minha mãe, tu és o meu deus.
Não te afastes de mim, porque a angústia vai chegar
e não tenho quem me ajude.
Muito inimigos rodeiam-me como touros;
cercam-me como touros ferozes da terra de Basã.
Como leões que rugem
abrem as suas bocas para me despedaçar.
Sou como água que se derrama;
todos os meus ossos se desconjuntam.
O meu coração, tal como cera,
derrete-se dentro de mim.
A minha garganta secou-se como barro cozido
e a minha língua pegou-se ao céu da boca.
Tu abandonaste-me à beira da sepultura.
Um bando de malfeitores me cercou como cães;
rasgaram-me as mãos e os pés.
Poderia contar todos os meus ossos;
os meus inimigos olham para mim e pasmam.
Repartem entre si a minha roupa e lançam sortes sobre ela.
Mas tu, Senhor, não te afastes de mim!
És a minha força! Vem depressa em meu auxílio!
Livra-me de morrer à espada;
não deixes que os cães me matem.
Livra-me da boca desse leões;
defende-me dos chifres desses touros.
Contarei, então, ao meu povo o que fizeste
e louvar-te-ei assim no meio da assembleia:
“Louvem o Senhor, todos os que crêem nele!
Glorifiquem-no todos os descendentes de Jacob!
Respeitem-no todos os descendentes de Israel!
Porque ele não despreza nem desdenha
dos sofrimentos dos pobres; nem desvia deles o olhar.
Ele ouve-os quando lhe pedem auxílio.”
Sem cessar te repetirei o meu louvor,
no meio da grande assembleia.
Na presença daqueles que te adoram,
cumprirei as promessas que te fiz.
Os pobres comerão até se fartarem;
os que buscam o senhor louvá-lo-ão.
Que eles vivam sempre bem!
Todas as nações se lembrarão do Senhor;
de toda a parte do mundo se voltarão para ele.
Todas as raças o adorarão.
De facto, o senhor é rei,
é ele quem governa as nações.
Adorem-no os que já desceram à sepultura;
todos os mortais se curvem na sua presença,
pois ele é quem dá a vida.
As gerações futuras servirão o senhor
e falarão dele à geração seguinte;
irão contar aos vindouros
aquilo que o Senhor fez, para salvar o seu povo.
Salmo 23
Salmo da colecção de David.
O Senhor é o meu pastor: nada me falta.
Em verdes pastos me faz descansar
e conduz-me a lugares de águas tranquilas.
Conforta a minha alma
e leva-me por caminhos rectos, honrando o seu bom nome.
Ainda que eu atravesse o mais escuro vale,
não terei receio de nada,
porque tu, Senhor, estás comigo.
A tua vara e o teu cajado dão-me segurança.
Preparaste-me um banquete à frente dos meus inimigos.
Recebeste-me com todas as honras
e encheste a minha taça até transbordar.
De facto, a tua bondade e o teu amor
acompanham-me ao longo da minha vida.
E na tua casa, Senhor, morarei para sempre.
Salmo 24
Salmo da colecção de David.
O mundo pertence ao Senhor, com tudo o que nele existe;
a terra e todos os que nela vivem são dele.
Ele edificou-a sobre as águas dos mares,
criou-a sobre as correntes do oceano.
Quem será digno de subir ao monte do Senhor?
Quem poderá apresentar-se no seu santo templo?
Só aqueles que são honestos em actos e pensamentos,
aqueles que não elevam o pensamento para os ídolos,
nem fazem promessas a falsos deuses.
A esses, o Senhor, seu Deus salvador,
abençoará e recompensará com generosidade.
Esses são os que buscam o Senhor,
que procuram a presença do Deus de Jacob.
Abram-se, ó portas eternas!
Fiquem abertas de par em par
que vai entrar o rei glorioso!
Quem é este rei glorioso?
É o Senhor, forte e poderoso,
o Senhor vitorioso nas batalhas.
Abram-se, ó portas eternas!
Fiquem abertas de par em par
que vai entrar o rei glorioso!
Quem é este rei glorioso?
É o Senhor, Deus do universo!
É ele o rei glorioso.
Bíblia “A Boa Nova”
Claro que Paulo conhecia bem estas palavras e, com certeza, no seu coração, entendia que a dificuldade dos judeus em deixar de olhar para Deus como severo, e vê-Lo como o Senhor misericordioso, movido pelo amor, dá a vida do seu filho, o primogénito, o dominador, de toda a criação, seria também a dificuldade daqueles que agora aceitavam “O Caminho”, fossem judeus ou gentios. Mas creio ainda que o maior temor do apóstolo seria que entre os cristãos entrasse o fermento dos fariseus, o “espírito” (atenção que quando falo aqui de espírito, não estou a falar de um ser espiritual, mas sim de uma atitude mental e de coração) da religião, substituindo a prática com sentido instrutivo, pela prática mecânica, substituindo a atitude do coração como dando sentido à prática, pela prática como tendo todo o valor. Daí que no texto em análise, Paulo falar da prática – as boas obras – como tendo apenas valor baseado no fruto – o amor.
Tornou-se bem claro na mente do apóstolo que o que motivava Deus nesta busca pelo homem perdido não são as obras. Nada que o ser humano pudesse fazer iria levar Deus a fazer a entrega do seu filho, logo não são as obras as motivadoras da graça. Olhou para o sacrifício e viu a graça de Deus, mas por trás Paulo, o imitador de Cristo, viu o amor como o grande motivador para as acções tremendas do nosso Deus. A Palavra de Deus ensina-nos isso mesmo.
(Estudo não concluído)
Sérgio Bernardo
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