INTRODUÇÃO
Deus criou o universo e todas as coisas visíveis e invisíveis, criou o mundo, todos os seres que nele habitam e por fim, como coroa da sua criação, criou o homem. Um ser com um corpo, mas também com uma alma, uma personalidade, vontade própria, sensibilidade, discernimento, enfim um ser pessoal como o próprio criador, e com um espírito, tal como Deus é espírito.
Deus mantinha um relacionamento íntimo com o homem e a mulher, passeava com eles, falava com eles, havia um profundo e genuíno amor entre eles. Pois, existia essa verdade no amor que sentiam porque Deus criou o homem com livre arbítrio, a capacidade de fazer escolhas, logo o ser humano apenas amaria e se relacionaria com Deus se quisesse, caso contrário Deus teria criado um “robot” programado para lhe demonstrar afecto, porém o seu relacionamento e amor nunca seria real.
No centro do jardim paradisíaco que Deus criou para o seu homem amado, Ele colocou uma árvore dizendo ao primeiro casal que esta seria a única excepção para eles, a única de que não poderiam comer o fruto. Aparentemente seria fácil obedecer a Deus permanecendo no seu amor, tinham tudo, apenas teriam de ficar perto do seu Criador, optando pela obediência, evidenciando o seu amor voluntário pelo seu Deus.
No entanto, apesar da indução feita pelo adversário de Deus junto da primeira mulher, foi por escolha própria e voluntária que o primeiro casal desobedeceu a Deus, Lhe virou as costas e optou por rejeitar o amor incondicional que lhes tinha sido oferecido por Deus.
Aqui começou todo um plano tendo em vista a restauração do plano inicial de Deus para o homem: a sua busca através dos séculos por homens e mulheres dispostos a voluntariamente amar e viver com Ele. Esta demanda exigia também a redenção desses seres, uma vez que embora Deus seja amor, Ele é também justiça, e deste “conflito interior” no coração de Deus, entre o seu amor e a sua justiça, que a sua misericórdia “concebeu” este plano por dispensações que iremos estudar.
Fica claro após este estudo que existe uma intenção clara de Deus no decorrer da história humana.
Em cada parte do estudo vamos abordar uma das dispensações da história da humanidade. Estas sim são as verdadeiras eras ou períodos em que a história deveria de estar dividida e não na clássica divisão da Pré-história, da História, da Idade Média do Renascimento, da Época Contemporânea, do Modernismo ou do Pós-modernismo. Por muito que todas as realidades históricas tenham importância, é por demais evidente que no decorrer de todo esse tempo, o plano de Deus das dispensações, tendo em vista a redenção e restauração da humanidade ao plano original de Deus, está por cima e sobre todas as épocas históricas.
É importante nesta altura dar uma definição de dispensação, até para justificar o porquê da divisão que apresento, uma vez que outros têm feito uma outra divisão do plano de Deus para a humanidade. Em primeiro lugar, importa dar a definição de dicionário para a palavra dispensação: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define dispensação como “acto ou efeito de dispensar; dispensa; acto ou efeito de distribuir, dividir, repartir; acto ou efeito de prestar, fornecer; acto ou efeito de conceder, deferir”. Perante esta definição técnica uma pergunta se impõe: Porquê chamar a estes períodos de dispensações e o que são então dispensações no sentido do estudo teológico que estamos a encetar?
A resposta a esta pergunta é que após o acto de rebelião e rejeição do primeiro casal para com o seu Criador, toda a espécie humana se separou de Deus e optou por viver afastado d’Ele, merecendo não mais do que rejeição e castigo da parte de Deus. Porém Ele optou por procurar reatar um relacionamento com o ser humano, dispensando do seu favor para connosco, apesar deste favor não ser minimamente merecido, encontrando meios e formas de abrir um caminho pelo meio da sua justiça para que esse relacionamento se tornasse possível, restaurando a humanidade, ao longo do desenvolvimento deste plano, à originalidade da intenção criadora de Deus. Claro que se torna óbvio, para quem está familiarizado com o léxico teológico, que favor imerecido é a definição teológica de Graça de Deus. Embora muitas discussões aqui coubessem, apesar de chavões como “Havia graça na lei tal como há lei na graça” podemos concluir sem mais, apenas partindo destas observações que graça é um elemento, um dom de Deus que atravessa todas as dispensações e todas as épocas da história. Não podemos dizer o mesmo da lei, podemos afirmar sim, que sendo Deus o ofendido e sobretudo o soberano, e absoluto em valores e atributos pessoais, toma para si a imposição das “regras do jogo” de como nos chegaremos a Ele, até porque é o único com poder para dirigir a historia no curso que entende.
Concluímos assim que o que, segundo a definição técnica dada, o que Deus dispensa, distribui, divide, reparte, presta, fornece, concede e defere é do seu favor imerecido, em se relacionar com o homem, segundo um plano e uma intenção que tem para a humanidade.
Chegamos então à definição de dispensação: dispensação é um período de tempo na história da humanidade em que Deus, mediante um pacto realizado com um homem ou um grupo de homens, concede em se relacionar amorosamente, alterando em cada pacto a forma e as condições desse relacionamento e do culto a Ele devido, revelando-se um pouco mais em cada dispensação.
Ao entrarmos em cada parte deste estudo vamos poder estudar o seguinte: o nome dessa dispensação – e o porquê desse nome ; o pactuante – aquele ou aqueles com quem o pacto é estabelecido; uma descrição panorâmica dessa dispensação e por fim o princípio adjacente a essa dispensação, contextualizando-a no plano geral da redenção.
Espero que no final a compreensão do privilégio gozado por nós em podermos nos relacionar com Deus esteja manifestamente valorizada.
PARTE I
Vamos começar pelo princípio.
A serpente, que era o mais astuto de todos os animais selvagens criados por Deus, disse à mulher: "Com que então Deus proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim!" Mas a mulher respondeu-lhe: "Nós podemos comer o fruto das árvores do jardim. Só nos proibiu de comer do fruto da árvore que está no meio do jardim. Se tocássemos no seu fruto, morreríamos." A serpente replicou-lhe: "Vocês não têm que morrer. De maneira nenhuma! O que acontece é que Deus sabe que, no dia em que comerem desse fruto, vocês abrirão os olhos e ficarão a conhecer o mal e o bem'', tal como Deus." A mulher pensou então que devia ser bom comer do fruto daquela árvore, que era apetitoso e agradável à vista e útil para alcançar sabedoria. Apanhou-o, comeu e deu ao seu marido que comeu também. 'Nesse momento, abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que andavam nus. Coseram então folhas de figueira, para com elas poderem cobrir a cintura.
Nisto, ouviram que o Senhor Deus andava a passear no jardim, pela fresca da tarde, e o homem foi-se esconder com a sua mulher no meio das árvores do jardim. 9O Senhor Deus chamou pelo homem e perguntou: "Onde estás?" O homem respondeu: "Apercebi-me de que andavas no jardim; tive medo, por estar nu, e escondi-me." Deus perguntou-lhe: "Quem é que te disse que estavas nu? Será que foste comer do fruto daquela árvore, que eu tinha proibido?" O homem replicou: "A mulher que me deste para viver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi." O Senhor Deus disse então à mulher: "Que é que fizeste?" A mulher respondeu: "A serpente enganou-me e eu comi." Deus disse então à serpente: "Já que fizeste isto, maldita sejas tu entre todos os animais, domésticos ou selvagens. Terás que arrastar-te pelo chão e comer terra, durante toda a tua vida. Farei com que tu e a mulher sejam inimigas, bem como a tua descendência e a descendência dela. A descendência da mulher há-de atingir-te a cabeça e tu procurarás atingir-lhe o calcanhar''. E à mulher disse: "Vou fazer com que sofras os incómodos da gravidez e terás que dar à luz com muitas dores. Apesar disso, sentirás forte atracção pelo teu marido, mas ele há-de mandar em ti." E ao homem disse: "Já que deste ouvidos à tua mulher e comeste do fruto da árvore da qual eu te tinha proibido de comer, a terra fica amaldiçoada por tua causa; e será com enorme sacrifício que dela hás-de tirar alimento, durante toda a tua vida. Só produzirá espinhos e cardos e tu terás de comer a erva que cresce no campo. Só à custa de muito suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado. Na verdade, tu és pó e em pó te hás-de transformar de novo."
O homem, Adão, deu à sua mulher o nome de Eva isto é Vida, porque ela era a mãe de todos os seres humanos. O Senhor Deus arranjou para o homem e para a sua mulher roupas de pele de animal para que se vestissem com elas.
Génesis 3:1-21 – Bíblia “A Boa Nova”
Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu.
Génesis 3:21 – Bíblia de Jerusalém
Após a criação do homem deu-se o episódio acima descrito: a queda do homem. O relacionamento quebrado iria ser restaurado por Deus. Vemos o vislumbre do plano de Deus no versículo 15, que é também conhecido como ”protoevangelho”, por ser a primeira referência messiânica da Bíblia.
O plano das dispensações de Deus começa aqui, e o primeiro pactuante foi Adão. A primeira dispensação tem por isso o nome de Dispensação Adâmica. Alguns autores atribuem ainda a existência de uma dispensação anterior à dispensação Adâmica, porém isso não faz sentido, pois o plano redentor apenas tem nexo como tal após a queda do homem.
Podemos assistir à constituição desta dispensação no episódio bíblico anteriormente apresentado. Deu-se a queda, o homem por isso escondeu-se de Deus, que por sua vez, como sempre, o buscava. Perante o pecado Deus disse que toda a natureza e a vida do homem seriam alteradas. Porquê? Quereria Deus um amor cego e tornou-se mau e cruel? Claramente que não, mas apesar do amor de Deus pelo primeiro casal não ter diminuído, Ele não poderia simplesmente passar por cima do gesto de Adão e Eva, tornando-se um Deus injusto que abdica da sua integridade e santidade, apenas por amor. Isto seria a aniquilação existencial de Deus. Na verdade o verbo poder não é bem aplicado, uma vez que a impossibilidade aqui apresentada é íntima, não imposta ou existencial, mas sim que a forma absoluta da existência de Deus, que faz d’Ele a ser único e poderoso que é, não faria sentido se contrariasse a sua própria natureza. No entanto o plano elaborado para a redenção da humanidade demonstra também por si só a multiforme e absoluta sabedoria de Deus. É claro que toda a linguagem que encontramos para explicar as coisas celestiais está limitada à existência finita que possuímos, indo tudo o que a Deus diz respeito muito além do que podemos pensar.
Na dispensação Adâmica assistimos a Deus cobrindo a nudez de Adão e Eva com peles de animais. No versículo da versão bíblica “A Boa Nova” diz que Deus “arranjou” as vestes, porém na outra versão também apresentada diz que Deus “fez”. Deus não apenas foi buscar, criou, trouxe à existência, mas “fez” as vestes, deixando claro que houve morte de animais, que nada tinham a ver com o gesto louco de Adão e Eva, mas que no entanto perderam a sua vida para cobrirem a nudez do primeiro casal, ensinado assim o primeiro princípio ao ser humano: o princípio do sangue, em que para haver remissão de pecados é necessário o derramamento de sangue inocente, por forma a que o preço do pecado seja pago e a justiça de Deus possa ser “satisfeita”, e o ser humano se possa assim de novo aproximar de Deus.
E sem derramamento de sangue não há remissão.
Hebreus 9:22b – Almeida Revista e Corrigida
Esta verdade eterna tornou-se na primeira forma de Deus dispensar do seu favor, Ele permitiu o acesso do Homem à sua pessoa, desde que houvesse sangue derramado para cobrir a nudez espiritual em que se encontravam. E é fácil demonstrar que aprenderam a lição. A história clássica de Abel e Caim, o primeiro homicídio, tem por base a rebelião de um homem que não quis obedecer à forma de culto estabelecida por Deus.
E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu, e teve a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um varão. E teve mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra. E aconteceu, ao cabo de dias, que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogénitos das suas ovelhas e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o seu semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E, se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e para ti será o seu desejo, e sobre ele dominarás.
Génesis 4:1-7- Almeida Revista e Corrigida
Os primeiro filhos de Adão e Eva: Abel, pastor de ovelhas; e Caim, agricultor. Em certo dia estes irmãos foram à presença de Deus, ambos levaram do fruto do seu trabalho, queriam ambos dar a Deus. Mas Deus agradou-se, “atentou” na linguagem da tradução bíblica apresentada, apenas para a oferta de Abel. Aparentemente era apenas na oferta que o culto que ambos foram prestar diferia, pelo que será interessante nos debruçarmos um pouco mais na diferença das ofertas: comecemos pela oferta de Caim – ele era agricultor e levou do melhor que a terra lhe tinha dado (podemos saber que era do melhor, ou das primícias do seu trabalho através da expressão “E Abel também trouxe dos primogénitos”, logo após a descrição da oferta de Caim), não podemos dizer que Caim não queria dar o melhor para o Senhor, ele queria agradecer certamente a Deus por lhe ter proporcionado uma boa colheita; a oferta de Abel eram as primícias do seu gado e a sua gordura. Qual a diferença: Deus tinha estabelecido desde o princípio que o culto a Ele, a aproximação à sua pessoa implicava o derramamento de sangue. A prova de que Caim sabia disso, sem se preocupar com isso apesar de tudo foi que Deus lhe disse “Se bem fizeres não haverá aceitação para ti?”, segundo uma nota de tradução da Bíblia de Jerusalém a tradução mais aproximada desta expressão será “Não é que, se ages bem, elevação, e se não ages bem à tuas porta o pecado”, deixando bem claro pelo verbo agir “ages” que Caim bem conhecia a forma correcta de se aproximar de Deus.
Após este episódio, tendo Caim permanecido em sua rebelião e pecado, acabou por matar a seu irmão, revelando de facto tudo o que ia no seu coração. Caim de facto não queria se relacionar com Deus, pois ainda quando está a ser repreendido pelo Senhor por ter assassinado o seu irmão, diz que a sua maldade é maior do que a que poderá ser perdoada. Ora com Abel morto e Caim longe da presença de Deus, apenas com o nascimento do terceiro filho homem de Adão e Eva a humanidade começou a atentar para a voz de Deus e o plano redentor prosseguiu.
Adão teve de novo relações com a sua mulher e esta deu à luz outro filho e chamou-se Set porque Deus lhe tinha concedido outro filho, para substituir Abel, que Caim tinha assassinado. Também Set teve um filho que se chamou Enós. Foi desde então que se começou a invocar o nome do Senhor.
Génesis 4:25,26 – Bíblia “A Boa Nova”
Em resumo, a primeira dispensação foi a Dispensação Adâmica, em que o pactuante foi Adão, o princípio foi o do sangue, que sem derramamento de sangue não há remissão de pecado, e que consistia na morte de um animal para que o homem cobrisse a sua nudez espiritual e pudesse aceder à presença de Deus.
PARTE II
Da descendência de Set e de Caim toda a terra foi povoada e a maldade do Homem também se espalhou. Deus perante um cenário de maldade e afronta à sua santidade em dimensões extremas intentou na destruição total da humanidade. Porém um homem, da descendência de Set, era honesto e andava com Deus. Esse homem chamava-se Noé. Porém Noé não era perfeito, pois como todos os seres humanos até aos dias de hoje, ele “achou graça aos olhos de Deus”:
Noé porém achou graça aos olhos do SENHOR.
Estas são as gerações de Noé: Noé era varão justo e reto em suas gerações; Noé andava com Deus.
Génesis 6:8,9 – Almeida Revista e Corrigida
Noé não era um supercrente que nunca pecava ou errava, era sim alguém que guardava a sua dispensação, mantinha um relacionamento com Deus: “Noé andava com Deus”.
Apesar disso Deus manteve a sua decisão de destruir a humanidade, no entanto esta iria ser “refundada” partindo da família deste homem que achou graça aos olhos de Deus.
Com Noé chegamos à segunda dispensação do plano redentor de Deus: a Dispensação Noética. O Senhor fez um pacto com Noé. Toda a humanidade seria destruída, porém ele e a sua família seriam poupados, bem como seriam os depositários da herança genética de tudo o que Deus tinha criado, sendo responsável por pregar o arrependimento a todos os homens, bem como de construir uma arca onde se refugiaria, em conjunto com a sua família e um casal de todas as espécies de animais terrestres.
Deus disse a Noé: "Chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra. Faze uma arca de madeira resinosa; tu a farás de caniços e a calafetarás com betume por dentro e por fora. Eis como a farás; para o comprimento da arca, trezentos côvados; para sua largura, cinquenta côvados; para sua altura, trinta côvados. Farás um teto para a arca e o rematarás um côvado mais alto; farás a entrada da arca pelo lado, e farás um primeiro, um segundo e um terceiro andares.
"Quanto a mim, vou enviar o dilúvio, as águas, sobre a terra, para exterminar de debaixo do céu toda carne que tiver sopro de vida: tudo o que há na terra deve perecer. Mas estabelecerei minha aliança contigo e entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. De tudo o que vive, de tudo o que é carne, farás entrar na arca dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada espécie de todos os répteis do solo, virá contigo um casal, para os conservares em vida. Quanto a ti, reúne todo tipo de alimento e armazena-o; isto servirá de alimento para ti e para eles." Noé assim fez; tudo o que Deus lhe ordenara, ele o fez.
Génesis 6:13-22 – Bíblia de Jerusalém
Mas contigo estabelecerei o meu pacto; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, e a tua mulher, e as mulheres de teus filhos contigo.
Génesis 6:18 – Almeida Revista e Corrigida
Mas contigo farei um pacto de aliança. Deves entrar na arca , tu e os teus filhos, a tua mulher e as dos teus filhos.
Génesis 6:18 – Bíblia “A Boa Nova”
Noé foi o pactuante deste novo pacto que Deus fez. Claro que este novo pacto não aniquilou o anterior, Deus nunca se esquece das promessas e alianças que faz, Ele deu uma nova perspectiva da sua graça, abriu um pouco mais o seu plano, porém nunca deixou cair a aliança anterior. Ou seja, embora Deus nesta dispensação ensine um novo princípio, introduza uma nova forma no modo do Homem se relacionar com Ele, o princípio do sangue continua a ser válido e exigido a quem, sendo pecador, deseje entrar na presença de Deus, santo e puro, e com Ele manter um relacionamento.
Se já sabemos a esta altura que o nome da dispensação é Noética e o pactuante é Noé, importa então saber que o princípio ensinado por Deus nesta dispensação é o Princípio da Obediência, ou melhor ainda o Princípio da Obediência à Palavra de Deus. O porquê deste enunciado? Na verdade a grande diferença entre esta aliança de Deus com Noé, daquela anteriormente estabelecida com Adão, é que nesta Deus não foi quem fez primeiro e deu o exemplo, ensinando com acções aos olhos do homem aquilo que pretendia dele. Com Adão e Eva, conforme vimos na Parte I, foi o Senhor quem fez as túnicas de peles para eles, matando diante dos seus olhos animais inocentes para cobrir a sua nudez. Com Noé não. Atentemos para o texto bíblico apresentado em seguida, sendo uma outra tradução dos versículo já apresentado de Génesis capítulo seis, versículo nove:
Esta é a história de Noé. Noé era a única pessoa justa e honesta que havia no seu tempo e cumpria sempre a vontade de Deus.
Génesis 6:9 – Bíblia “A Boa Nova”
Noé era um homem descendente de Set e Enós, aqueles que iniciaram o culto a Deus. Certamente que conhecia bem que ele teria de se chegar a Deus com sacrifício, e em tudo procurava ser bom e honesto. Claro que Noé era pecador, senão não seria necessário ter sido objecto da Graça de Deus. Este versículo nos mostra que Noé já vivia em obediência. Qual então a grande diferença? A grande diferença está em que Deus falou directamente com Noé, deu-lhe instruções concretas para vida, a sua desobediência implicava a morte. Na dispensação Adâmica o Homem repetiu o gesto redentor de Deus, dado como exemplo da forma de culto exigida, na presente dispensação Noética, Deus não agiu, ordenou o acto redentor e estabeleceu a aliança, possibilitando a Noé a opção de entrar nesta aliança, ou pacto, com Deus. O Senhor ordenou a construção da arca e todas as outras coisas que lemos e Noé entrou no pacto, na aliança de Deus. O Senhor disse no versículo 18 do capítulo seis de Génesis que estabeleceria com Noé a sua “aliança” ou o seu “pacto”, e esta aliança é consumada, ou seja Noé acede no cumprimento desta aliança ao fazer tudo quanto Deus lhe tinha ordenado.
Quanto a mim, vou enviar o dilúvio, as águas, sobre a terra, para exterminar de debaixo do céu toda carne que tiver sopro de vida: tudo o que há na terra deve perecer. Mas estabelecerei minha aliança contigo e entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. De tudo o que vive, de tudo o que é carne, farás entrar na arca dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada espécie de todos os répteis do solo, virá contigo um casal, para os conservares em vida. Quanto a ti, reúne todo tipo de alimento e armazena-o; is to servirá de alimento para ti e para eles." Noé assim fez; tudo o que Deus lhe ordenara, ele o fez.
Génesis 6:17-22 – Bíblia de Jerusalém
Mais tarde, após o dilúvio, Deus faz acompanhar o consumar desta aliança com a promessa de que nunca mais o mundo iria ser destruído por um dilúvio, deixando o arco-íris como sinal desta aliança feita com Noé.
Deus falou assim a Noé e a seus filhos: "Eis que estabeleço minha aliança convosco e com os vossos descendentes depois de vós, e com todos os seres animados que estão convosco: aves, animais, todas as feras, tudo o que saiu da arca convosco, todos os animais da terra. Estabeleço minha aliança convosco: tudo o que existe não será mais destruído pelas águas do dilúvio; não haverá mais dilúvio para devastar a terra."
Disse Deus: "Eis o sinal da aliança que instituo entre mim e vós e todos os seres vivos que estão convosco, para todas as gerações futuras: porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra. Quando eu reunir as nuvens sobre a terra e o arco aparecer na nuvem, eu me lembrarei da aliança que há entre mim e vós e todos os seres vivos; toda carne e as águas não mais se tornarão um dilúvio para destruir toda carne. Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lembrarei da aliança eterna que há entre Deus e os seres vivos com toda carne que existe sobre a terra."
Deus disse a Noé: "Este é o sinal da aliança que estabeleço entre mim e toda carne que existe sobre a terra."
Génesis 9:8-17 – Bíblia de Jerusalém
A partir deste momento o plano de redentor de Deus já estava revelado um pouco mais. O Senhor já tinha deixado dois princípios desse plano: o Princípio do Sangue e o Princípio da Obediência à Palavra de Deus. Porém não parou aqui.
PARTE III
Antes de entrarmos concretamente no estudo da terceira dispensação, importa fazer um pequeno resumo dos factos da narrativa histórica da Bíblia mais relevantes do período que medeia entre o estabelecimento da aliança Noética e a nova aliança, ou pacto, ou dispensação, que vamos estudar, ou seja do período em que a dispensação Noética esteve em vigor.
Antes demais importa aqui reforçar que o aparecimento de uma nova dispensação não anula a seguinte, o que faz sim é acrescentar revelação ao plano de Deus, e o que pode alterar é a forma de culto exigida por Deus. Com a aliança Noética aprendemos que Deus deseja obediência à sua Palavra, no entanto o Homem bem sabia que a alma que pecar morrerá e que sem derramamento de sangue não havia, nem há, nem haverá, remissão de pecados. Daí que eles bem sabiam a forma de culto que Deus exigia, e que no caso destas dispensações não foi alterada.
(Estudo não concluído)
Deus criou o universo e todas as coisas visíveis e invisíveis, criou o mundo, todos os seres que nele habitam e por fim, como coroa da sua criação, criou o homem. Um ser com um corpo, mas também com uma alma, uma personalidade, vontade própria, sensibilidade, discernimento, enfim um ser pessoal como o próprio criador, e com um espírito, tal como Deus é espírito.
Deus mantinha um relacionamento íntimo com o homem e a mulher, passeava com eles, falava com eles, havia um profundo e genuíno amor entre eles. Pois, existia essa verdade no amor que sentiam porque Deus criou o homem com livre arbítrio, a capacidade de fazer escolhas, logo o ser humano apenas amaria e se relacionaria com Deus se quisesse, caso contrário Deus teria criado um “robot” programado para lhe demonstrar afecto, porém o seu relacionamento e amor nunca seria real.
No centro do jardim paradisíaco que Deus criou para o seu homem amado, Ele colocou uma árvore dizendo ao primeiro casal que esta seria a única excepção para eles, a única de que não poderiam comer o fruto. Aparentemente seria fácil obedecer a Deus permanecendo no seu amor, tinham tudo, apenas teriam de ficar perto do seu Criador, optando pela obediência, evidenciando o seu amor voluntário pelo seu Deus.
No entanto, apesar da indução feita pelo adversário de Deus junto da primeira mulher, foi por escolha própria e voluntária que o primeiro casal desobedeceu a Deus, Lhe virou as costas e optou por rejeitar o amor incondicional que lhes tinha sido oferecido por Deus.
Aqui começou todo um plano tendo em vista a restauração do plano inicial de Deus para o homem: a sua busca através dos séculos por homens e mulheres dispostos a voluntariamente amar e viver com Ele. Esta demanda exigia também a redenção desses seres, uma vez que embora Deus seja amor, Ele é também justiça, e deste “conflito interior” no coração de Deus, entre o seu amor e a sua justiça, que a sua misericórdia “concebeu” este plano por dispensações que iremos estudar.
Fica claro após este estudo que existe uma intenção clara de Deus no decorrer da história humana.
Em cada parte do estudo vamos abordar uma das dispensações da história da humanidade. Estas sim são as verdadeiras eras ou períodos em que a história deveria de estar dividida e não na clássica divisão da Pré-história, da História, da Idade Média do Renascimento, da Época Contemporânea, do Modernismo ou do Pós-modernismo. Por muito que todas as realidades históricas tenham importância, é por demais evidente que no decorrer de todo esse tempo, o plano de Deus das dispensações, tendo em vista a redenção e restauração da humanidade ao plano original de Deus, está por cima e sobre todas as épocas históricas.
É importante nesta altura dar uma definição de dispensação, até para justificar o porquê da divisão que apresento, uma vez que outros têm feito uma outra divisão do plano de Deus para a humanidade. Em primeiro lugar, importa dar a definição de dicionário para a palavra dispensação: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define dispensação como “acto ou efeito de dispensar; dispensa; acto ou efeito de distribuir, dividir, repartir; acto ou efeito de prestar, fornecer; acto ou efeito de conceder, deferir”. Perante esta definição técnica uma pergunta se impõe: Porquê chamar a estes períodos de dispensações e o que são então dispensações no sentido do estudo teológico que estamos a encetar?
A resposta a esta pergunta é que após o acto de rebelião e rejeição do primeiro casal para com o seu Criador, toda a espécie humana se separou de Deus e optou por viver afastado d’Ele, merecendo não mais do que rejeição e castigo da parte de Deus. Porém Ele optou por procurar reatar um relacionamento com o ser humano, dispensando do seu favor para connosco, apesar deste favor não ser minimamente merecido, encontrando meios e formas de abrir um caminho pelo meio da sua justiça para que esse relacionamento se tornasse possível, restaurando a humanidade, ao longo do desenvolvimento deste plano, à originalidade da intenção criadora de Deus. Claro que se torna óbvio, para quem está familiarizado com o léxico teológico, que favor imerecido é a definição teológica de Graça de Deus. Embora muitas discussões aqui coubessem, apesar de chavões como “Havia graça na lei tal como há lei na graça” podemos concluir sem mais, apenas partindo destas observações que graça é um elemento, um dom de Deus que atravessa todas as dispensações e todas as épocas da história. Não podemos dizer o mesmo da lei, podemos afirmar sim, que sendo Deus o ofendido e sobretudo o soberano, e absoluto em valores e atributos pessoais, toma para si a imposição das “regras do jogo” de como nos chegaremos a Ele, até porque é o único com poder para dirigir a historia no curso que entende.
Concluímos assim que o que, segundo a definição técnica dada, o que Deus dispensa, distribui, divide, reparte, presta, fornece, concede e defere é do seu favor imerecido, em se relacionar com o homem, segundo um plano e uma intenção que tem para a humanidade.
Chegamos então à definição de dispensação: dispensação é um período de tempo na história da humanidade em que Deus, mediante um pacto realizado com um homem ou um grupo de homens, concede em se relacionar amorosamente, alterando em cada pacto a forma e as condições desse relacionamento e do culto a Ele devido, revelando-se um pouco mais em cada dispensação.
Ao entrarmos em cada parte deste estudo vamos poder estudar o seguinte: o nome dessa dispensação – e o porquê desse nome ; o pactuante – aquele ou aqueles com quem o pacto é estabelecido; uma descrição panorâmica dessa dispensação e por fim o princípio adjacente a essa dispensação, contextualizando-a no plano geral da redenção.
Espero que no final a compreensão do privilégio gozado por nós em podermos nos relacionar com Deus esteja manifestamente valorizada.
PARTE I
Vamos começar pelo princípio.
A serpente, que era o mais astuto de todos os animais selvagens criados por Deus, disse à mulher: "Com que então Deus proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim!" Mas a mulher respondeu-lhe: "Nós podemos comer o fruto das árvores do jardim. Só nos proibiu de comer do fruto da árvore que está no meio do jardim. Se tocássemos no seu fruto, morreríamos." A serpente replicou-lhe: "Vocês não têm que morrer. De maneira nenhuma! O que acontece é que Deus sabe que, no dia em que comerem desse fruto, vocês abrirão os olhos e ficarão a conhecer o mal e o bem'', tal como Deus." A mulher pensou então que devia ser bom comer do fruto daquela árvore, que era apetitoso e agradável à vista e útil para alcançar sabedoria. Apanhou-o, comeu e deu ao seu marido que comeu também. 'Nesse momento, abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que andavam nus. Coseram então folhas de figueira, para com elas poderem cobrir a cintura.
Nisto, ouviram que o Senhor Deus andava a passear no jardim, pela fresca da tarde, e o homem foi-se esconder com a sua mulher no meio das árvores do jardim. 9O Senhor Deus chamou pelo homem e perguntou: "Onde estás?" O homem respondeu: "Apercebi-me de que andavas no jardim; tive medo, por estar nu, e escondi-me." Deus perguntou-lhe: "Quem é que te disse que estavas nu? Será que foste comer do fruto daquela árvore, que eu tinha proibido?" O homem replicou: "A mulher que me deste para viver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi." O Senhor Deus disse então à mulher: "Que é que fizeste?" A mulher respondeu: "A serpente enganou-me e eu comi." Deus disse então à serpente: "Já que fizeste isto, maldita sejas tu entre todos os animais, domésticos ou selvagens. Terás que arrastar-te pelo chão e comer terra, durante toda a tua vida. Farei com que tu e a mulher sejam inimigas, bem como a tua descendência e a descendência dela. A descendência da mulher há-de atingir-te a cabeça e tu procurarás atingir-lhe o calcanhar''. E à mulher disse: "Vou fazer com que sofras os incómodos da gravidez e terás que dar à luz com muitas dores. Apesar disso, sentirás forte atracção pelo teu marido, mas ele há-de mandar em ti." E ao homem disse: "Já que deste ouvidos à tua mulher e comeste do fruto da árvore da qual eu te tinha proibido de comer, a terra fica amaldiçoada por tua causa; e será com enorme sacrifício que dela hás-de tirar alimento, durante toda a tua vida. Só produzirá espinhos e cardos e tu terás de comer a erva que cresce no campo. Só à custa de muito suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado. Na verdade, tu és pó e em pó te hás-de transformar de novo."
O homem, Adão, deu à sua mulher o nome de Eva isto é Vida, porque ela era a mãe de todos os seres humanos. O Senhor Deus arranjou para o homem e para a sua mulher roupas de pele de animal para que se vestissem com elas.
Génesis 3:1-21 – Bíblia “A Boa Nova”
Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu.
Génesis 3:21 – Bíblia de Jerusalém
Após a criação do homem deu-se o episódio acima descrito: a queda do homem. O relacionamento quebrado iria ser restaurado por Deus. Vemos o vislumbre do plano de Deus no versículo 15, que é também conhecido como ”protoevangelho”, por ser a primeira referência messiânica da Bíblia.
O plano das dispensações de Deus começa aqui, e o primeiro pactuante foi Adão. A primeira dispensação tem por isso o nome de Dispensação Adâmica. Alguns autores atribuem ainda a existência de uma dispensação anterior à dispensação Adâmica, porém isso não faz sentido, pois o plano redentor apenas tem nexo como tal após a queda do homem.
Podemos assistir à constituição desta dispensação no episódio bíblico anteriormente apresentado. Deu-se a queda, o homem por isso escondeu-se de Deus, que por sua vez, como sempre, o buscava. Perante o pecado Deus disse que toda a natureza e a vida do homem seriam alteradas. Porquê? Quereria Deus um amor cego e tornou-se mau e cruel? Claramente que não, mas apesar do amor de Deus pelo primeiro casal não ter diminuído, Ele não poderia simplesmente passar por cima do gesto de Adão e Eva, tornando-se um Deus injusto que abdica da sua integridade e santidade, apenas por amor. Isto seria a aniquilação existencial de Deus. Na verdade o verbo poder não é bem aplicado, uma vez que a impossibilidade aqui apresentada é íntima, não imposta ou existencial, mas sim que a forma absoluta da existência de Deus, que faz d’Ele a ser único e poderoso que é, não faria sentido se contrariasse a sua própria natureza. No entanto o plano elaborado para a redenção da humanidade demonstra também por si só a multiforme e absoluta sabedoria de Deus. É claro que toda a linguagem que encontramos para explicar as coisas celestiais está limitada à existência finita que possuímos, indo tudo o que a Deus diz respeito muito além do que podemos pensar.
Na dispensação Adâmica assistimos a Deus cobrindo a nudez de Adão e Eva com peles de animais. No versículo da versão bíblica “A Boa Nova” diz que Deus “arranjou” as vestes, porém na outra versão também apresentada diz que Deus “fez”. Deus não apenas foi buscar, criou, trouxe à existência, mas “fez” as vestes, deixando claro que houve morte de animais, que nada tinham a ver com o gesto louco de Adão e Eva, mas que no entanto perderam a sua vida para cobrirem a nudez do primeiro casal, ensinado assim o primeiro princípio ao ser humano: o princípio do sangue, em que para haver remissão de pecados é necessário o derramamento de sangue inocente, por forma a que o preço do pecado seja pago e a justiça de Deus possa ser “satisfeita”, e o ser humano se possa assim de novo aproximar de Deus.
E sem derramamento de sangue não há remissão.
Hebreus 9:22b – Almeida Revista e Corrigida
Esta verdade eterna tornou-se na primeira forma de Deus dispensar do seu favor, Ele permitiu o acesso do Homem à sua pessoa, desde que houvesse sangue derramado para cobrir a nudez espiritual em que se encontravam. E é fácil demonstrar que aprenderam a lição. A história clássica de Abel e Caim, o primeiro homicídio, tem por base a rebelião de um homem que não quis obedecer à forma de culto estabelecida por Deus.
E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu, e teve a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um varão. E teve mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra. E aconteceu, ao cabo de dias, que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogénitos das suas ovelhas e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o seu semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E, se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e para ti será o seu desejo, e sobre ele dominarás.
Génesis 4:1-7- Almeida Revista e Corrigida
Os primeiro filhos de Adão e Eva: Abel, pastor de ovelhas; e Caim, agricultor. Em certo dia estes irmãos foram à presença de Deus, ambos levaram do fruto do seu trabalho, queriam ambos dar a Deus. Mas Deus agradou-se, “atentou” na linguagem da tradução bíblica apresentada, apenas para a oferta de Abel. Aparentemente era apenas na oferta que o culto que ambos foram prestar diferia, pelo que será interessante nos debruçarmos um pouco mais na diferença das ofertas: comecemos pela oferta de Caim – ele era agricultor e levou do melhor que a terra lhe tinha dado (podemos saber que era do melhor, ou das primícias do seu trabalho através da expressão “E Abel também trouxe dos primogénitos”, logo após a descrição da oferta de Caim), não podemos dizer que Caim não queria dar o melhor para o Senhor, ele queria agradecer certamente a Deus por lhe ter proporcionado uma boa colheita; a oferta de Abel eram as primícias do seu gado e a sua gordura. Qual a diferença: Deus tinha estabelecido desde o princípio que o culto a Ele, a aproximação à sua pessoa implicava o derramamento de sangue. A prova de que Caim sabia disso, sem se preocupar com isso apesar de tudo foi que Deus lhe disse “Se bem fizeres não haverá aceitação para ti?”, segundo uma nota de tradução da Bíblia de Jerusalém a tradução mais aproximada desta expressão será “Não é que, se ages bem, elevação, e se não ages bem à tuas porta o pecado”, deixando bem claro pelo verbo agir “ages” que Caim bem conhecia a forma correcta de se aproximar de Deus.
Após este episódio, tendo Caim permanecido em sua rebelião e pecado, acabou por matar a seu irmão, revelando de facto tudo o que ia no seu coração. Caim de facto não queria se relacionar com Deus, pois ainda quando está a ser repreendido pelo Senhor por ter assassinado o seu irmão, diz que a sua maldade é maior do que a que poderá ser perdoada. Ora com Abel morto e Caim longe da presença de Deus, apenas com o nascimento do terceiro filho homem de Adão e Eva a humanidade começou a atentar para a voz de Deus e o plano redentor prosseguiu.
Adão teve de novo relações com a sua mulher e esta deu à luz outro filho e chamou-se Set porque Deus lhe tinha concedido outro filho, para substituir Abel, que Caim tinha assassinado. Também Set teve um filho que se chamou Enós. Foi desde então que se começou a invocar o nome do Senhor.
Génesis 4:25,26 – Bíblia “A Boa Nova”
Em resumo, a primeira dispensação foi a Dispensação Adâmica, em que o pactuante foi Adão, o princípio foi o do sangue, que sem derramamento de sangue não há remissão de pecado, e que consistia na morte de um animal para que o homem cobrisse a sua nudez espiritual e pudesse aceder à presença de Deus.
PARTE II
Da descendência de Set e de Caim toda a terra foi povoada e a maldade do Homem também se espalhou. Deus perante um cenário de maldade e afronta à sua santidade em dimensões extremas intentou na destruição total da humanidade. Porém um homem, da descendência de Set, era honesto e andava com Deus. Esse homem chamava-se Noé. Porém Noé não era perfeito, pois como todos os seres humanos até aos dias de hoje, ele “achou graça aos olhos de Deus”:
Noé porém achou graça aos olhos do SENHOR.
Estas são as gerações de Noé: Noé era varão justo e reto em suas gerações; Noé andava com Deus.
Génesis 6:8,9 – Almeida Revista e Corrigida
Noé não era um supercrente que nunca pecava ou errava, era sim alguém que guardava a sua dispensação, mantinha um relacionamento com Deus: “Noé andava com Deus”.
Apesar disso Deus manteve a sua decisão de destruir a humanidade, no entanto esta iria ser “refundada” partindo da família deste homem que achou graça aos olhos de Deus.
Com Noé chegamos à segunda dispensação do plano redentor de Deus: a Dispensação Noética. O Senhor fez um pacto com Noé. Toda a humanidade seria destruída, porém ele e a sua família seriam poupados, bem como seriam os depositários da herança genética de tudo o que Deus tinha criado, sendo responsável por pregar o arrependimento a todos os homens, bem como de construir uma arca onde se refugiaria, em conjunto com a sua família e um casal de todas as espécies de animais terrestres.
Deus disse a Noé: "Chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra. Faze uma arca de madeira resinosa; tu a farás de caniços e a calafetarás com betume por dentro e por fora. Eis como a farás; para o comprimento da arca, trezentos côvados; para sua largura, cinquenta côvados; para sua altura, trinta côvados. Farás um teto para a arca e o rematarás um côvado mais alto; farás a entrada da arca pelo lado, e farás um primeiro, um segundo e um terceiro andares.
"Quanto a mim, vou enviar o dilúvio, as águas, sobre a terra, para exterminar de debaixo do céu toda carne que tiver sopro de vida: tudo o que há na terra deve perecer. Mas estabelecerei minha aliança contigo e entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. De tudo o que vive, de tudo o que é carne, farás entrar na arca dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada espécie de todos os répteis do solo, virá contigo um casal, para os conservares em vida. Quanto a ti, reúne todo tipo de alimento e armazena-o; isto servirá de alimento para ti e para eles." Noé assim fez; tudo o que Deus lhe ordenara, ele o fez.
Génesis 6:13-22 – Bíblia de Jerusalém
Mas contigo estabelecerei o meu pacto; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, e a tua mulher, e as mulheres de teus filhos contigo.
Génesis 6:18 – Almeida Revista e Corrigida
Mas contigo farei um pacto de aliança. Deves entrar na arca , tu e os teus filhos, a tua mulher e as dos teus filhos.
Génesis 6:18 – Bíblia “A Boa Nova”
Noé foi o pactuante deste novo pacto que Deus fez. Claro que este novo pacto não aniquilou o anterior, Deus nunca se esquece das promessas e alianças que faz, Ele deu uma nova perspectiva da sua graça, abriu um pouco mais o seu plano, porém nunca deixou cair a aliança anterior. Ou seja, embora Deus nesta dispensação ensine um novo princípio, introduza uma nova forma no modo do Homem se relacionar com Ele, o princípio do sangue continua a ser válido e exigido a quem, sendo pecador, deseje entrar na presença de Deus, santo e puro, e com Ele manter um relacionamento.
Se já sabemos a esta altura que o nome da dispensação é Noética e o pactuante é Noé, importa então saber que o princípio ensinado por Deus nesta dispensação é o Princípio da Obediência, ou melhor ainda o Princípio da Obediência à Palavra de Deus. O porquê deste enunciado? Na verdade a grande diferença entre esta aliança de Deus com Noé, daquela anteriormente estabelecida com Adão, é que nesta Deus não foi quem fez primeiro e deu o exemplo, ensinando com acções aos olhos do homem aquilo que pretendia dele. Com Adão e Eva, conforme vimos na Parte I, foi o Senhor quem fez as túnicas de peles para eles, matando diante dos seus olhos animais inocentes para cobrir a sua nudez. Com Noé não. Atentemos para o texto bíblico apresentado em seguida, sendo uma outra tradução dos versículo já apresentado de Génesis capítulo seis, versículo nove:
Esta é a história de Noé. Noé era a única pessoa justa e honesta que havia no seu tempo e cumpria sempre a vontade de Deus.
Génesis 6:9 – Bíblia “A Boa Nova”
Noé era um homem descendente de Set e Enós, aqueles que iniciaram o culto a Deus. Certamente que conhecia bem que ele teria de se chegar a Deus com sacrifício, e em tudo procurava ser bom e honesto. Claro que Noé era pecador, senão não seria necessário ter sido objecto da Graça de Deus. Este versículo nos mostra que Noé já vivia em obediência. Qual então a grande diferença? A grande diferença está em que Deus falou directamente com Noé, deu-lhe instruções concretas para vida, a sua desobediência implicava a morte. Na dispensação Adâmica o Homem repetiu o gesto redentor de Deus, dado como exemplo da forma de culto exigida, na presente dispensação Noética, Deus não agiu, ordenou o acto redentor e estabeleceu a aliança, possibilitando a Noé a opção de entrar nesta aliança, ou pacto, com Deus. O Senhor ordenou a construção da arca e todas as outras coisas que lemos e Noé entrou no pacto, na aliança de Deus. O Senhor disse no versículo 18 do capítulo seis de Génesis que estabeleceria com Noé a sua “aliança” ou o seu “pacto”, e esta aliança é consumada, ou seja Noé acede no cumprimento desta aliança ao fazer tudo quanto Deus lhe tinha ordenado.
Quanto a mim, vou enviar o dilúvio, as águas, sobre a terra, para exterminar de debaixo do céu toda carne que tiver sopro de vida: tudo o que há na terra deve perecer. Mas estabelecerei minha aliança contigo e entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. De tudo o que vive, de tudo o que é carne, farás entrar na arca dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada espécie de todos os répteis do solo, virá contigo um casal, para os conservares em vida. Quanto a ti, reúne todo tipo de alimento e armazena-o; is to servirá de alimento para ti e para eles." Noé assim fez; tudo o que Deus lhe ordenara, ele o fez.
Génesis 6:17-22 – Bíblia de Jerusalém
Mais tarde, após o dilúvio, Deus faz acompanhar o consumar desta aliança com a promessa de que nunca mais o mundo iria ser destruído por um dilúvio, deixando o arco-íris como sinal desta aliança feita com Noé.
Deus falou assim a Noé e a seus filhos: "Eis que estabeleço minha aliança convosco e com os vossos descendentes depois de vós, e com todos os seres animados que estão convosco: aves, animais, todas as feras, tudo o que saiu da arca convosco, todos os animais da terra. Estabeleço minha aliança convosco: tudo o que existe não será mais destruído pelas águas do dilúvio; não haverá mais dilúvio para devastar a terra."
Disse Deus: "Eis o sinal da aliança que instituo entre mim e vós e todos os seres vivos que estão convosco, para todas as gerações futuras: porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra. Quando eu reunir as nuvens sobre a terra e o arco aparecer na nuvem, eu me lembrarei da aliança que há entre mim e vós e todos os seres vivos; toda carne e as águas não mais se tornarão um dilúvio para destruir toda carne. Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lembrarei da aliança eterna que há entre Deus e os seres vivos com toda carne que existe sobre a terra."
Deus disse a Noé: "Este é o sinal da aliança que estabeleço entre mim e toda carne que existe sobre a terra."
Génesis 9:8-17 – Bíblia de Jerusalém
A partir deste momento o plano de redentor de Deus já estava revelado um pouco mais. O Senhor já tinha deixado dois princípios desse plano: o Princípio do Sangue e o Princípio da Obediência à Palavra de Deus. Porém não parou aqui.
PARTE III
Antes de entrarmos concretamente no estudo da terceira dispensação, importa fazer um pequeno resumo dos factos da narrativa histórica da Bíblia mais relevantes do período que medeia entre o estabelecimento da aliança Noética e a nova aliança, ou pacto, ou dispensação, que vamos estudar, ou seja do período em que a dispensação Noética esteve em vigor.
Antes demais importa aqui reforçar que o aparecimento de uma nova dispensação não anula a seguinte, o que faz sim é acrescentar revelação ao plano de Deus, e o que pode alterar é a forma de culto exigida por Deus. Com a aliança Noética aprendemos que Deus deseja obediência à sua Palavra, no entanto o Homem bem sabia que a alma que pecar morrerá e que sem derramamento de sangue não havia, nem há, nem haverá, remissão de pecados. Daí que eles bem sabiam a forma de culto que Deus exigia, e que no caso destas dispensações não foi alterada.
(Estudo não concluído)
Sérgio Bernardo
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