Vive!

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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sobre a Fé


A fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver. Foi pela fé que as pessoas do passado conseguiram a aprovação de Deus. É pela fé que entendemos que o Universo foi criado pela palavra de Deus e que aquilo que pode ser visto foi feito daquilo que não se vê.
Foi pela fé que Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Pela fé ele conseguiu a aprovação de Deus como homem correto, tendo o próprio Deus aprovado as suas ofertas. Por meio da sua fé, Abel, mesmo depois de morto, ainda fala. Foi pela fé que Enoque escapou da morte. Ele foi levado para Deus, e ninguém o encontrou porque Deus mesmo o havia levado. As Escrituras Sagradas dizem que antes disso ele já havia agradado a Deus. Sem fé ninguém pode agradar a Deus, porque quem vai a ele precisa crer que ele existe e que recompensa os que procuram conhecê-lo melhor. Foi pela fé que Noé ouviu os avisos de Deus sobre as coisas que iam acontecer e que não podiam ser vistas. Noé obedeceu a Deus e construiu uma barca em que ele e a sua família foram salvos. Assim Noé condenou o mundo e recebeu de Deus a aprovação que vem por meio da fé. Foi pela fé que Abraão, ao ser chamado por Deus, obedeceu e saiu para uma terra que Deus lhe prometeu dar. Ele deixou o seu próprio país, sem saber para onde ia. Pela fé ele morou como estrangeiro na terra que Deus lhe havia prometido. Viveu em barracas com Isaque e Jacó, que também receberam a mesma promessa de Deus. Porque Abraão esperava a cidade que Deus planejou e construiu, a cidade que tem alicerces que não podem ser destruídos. Foi pela fé que Abraão se tornou pai, embora fosse velho demais e a própria Sara não pudesse mais ter filhos. Ele creu que Deus ia cumprir a sua promessa. Assim, de um só homem, que estava praticamente morto, nasceram tantos descendentes como as estrelas do céu, tão numerosos como os grãos de areia da praia do mar. Todos esses morreram cheios de fé. Não receberam as coisas que Deus tinha prometido, mas as viram de longe e ficaram contentes por causa delas. E declararam que eram estrangeiros e refugiados, de passagem por este mundo. E aqueles que dizem isso mostram bem claro que estão procurando uma pátria para si mesmos. Não ficaram pensando em voltar para a terra de onde tinham saído. Se quisessem, teriam a oportunidade de voltar. Mas, pelo contrário, estavam procurando uma pátria melhor, a pátria celestial. E Deus não se envergonha de ser chamado de o Deus deles, porque ele mesmo preparou uma cidade para eles. Foi pela fé que Abraão, quando Deus o quis pôr à prova, ofereceu o seu filho Isaque em sacrifício. Deus tinha prometido muitos descendentes a Abraão, mas mesmo assim ele estava pronto para oferecer o seu único filho em sacrifício. Deus lhe tinha dito: “Por meio de Isaque é que você terá descendentes.” Abraão reconhecia que Deus era capaz de ressuscitar Isaque, e, por assim dizer, Abraão tornou a receber da morte o seu filho Isaque. Foi pela fé que Isaque prometeu bênçãos para o futuro a Jacó e a Esaú. Foi pela fé que Jacó, pouco antes de morrer, abençoou os filhos de José. Ele se apoiou na sua bengala e adorou a Deus. Foi pela fé que José, quando estava para morrer, falou da saída dos israelitas do Egito e deu ordens sobre o que deveria ser feito com o seu corpo. Foi pela fé que os pais de Moisés, quando ele nasceu, o esconderam durante três meses. Eles viram que o menino era bonito e não tiveram medo de desobedecer à ordem do rei. Foi pela fé que Moisés, quando já era adulto, não quis ser chamado de filho da filha de Faraó. Ele preferiu sofrer com o povo de Deus em vez de gozar, por pouco tempo, os prazeres do pecado. Ele achou que era muito melhor sofrer o desprezo por causa do Messias do que possuir todos os tesouros do Egito. É que ele tinha os olhos fixos na recompensa futura. Foi pela fé que Moisés saiu do Egito, sem ter medo da raiva do rei, e continuou firme, como se estivesse vendo o Deus invisível. Pela fé Moisés começou o costume de celebrar a Páscoa e mandou marcar com sangue as portas das casas dos israelitas para que o Anjo da Morte não matasse os filhos mais velhos deles. Foi pela fé que os israelitas atravessaram o mar Vermelho como se fosse terra seca. E, quando os egípcios tentaram atravessar, o mar os engoliu. Foi pela fé que caíram as muralhas de Jericó, depois que os israelitas marcharam em volta delas durante sete dias. Foi pela fé que Raabe, a prostituta, não morreu com os que tinham desobedecido a Deus, pois ela havia recebido bem os espiões israelitas.
O que mais posso dizer? O tempo é pouco para falar de Gideão, de Baraque, de Sansão, de Jefté, de Davi, de Samuel e dos profetas. Pela fé eles lutaram contra nações inteiras e venceram. Fizeram o que era correto e receberam o que Deus lhes havia prometido. Fecharam a boca de leões, apagaram incêndios terríveis e escaparam de serem mortos à espada. Eram fracos, mas se tornaram fortes. Foram poderosos na guerra e venceram exércitos estrangeiros. Pela fé mulheres receberam de volta os seus mortos, que ressuscitaram. Outros foram torturados até a morte; eles recusaram ser postos em liberdade a fim de ressuscitar para uma vida melhor. Alguns foram insultados e surrados; e outros, acorrentados e jogados na cadeia. Outros foram mortos a pedradas; outros, serrados pelo meio; e outros, mortos à espada. Andaram de um lado para outro vestidos de peles de ovelhas e de cabras; eram pobres, perseguidos e maltratados. Andaram como refugiados pelos desertos e montes, vivendo em cavernas e em buracos na terra. O mundo não era digno deles! Porque creram, todas essas pessoas foram aprovadas por Deus, mas não receberam o que ele havia prometido. Pois Deus tinha preparado um plano ainda melhor para nós, a fim de que, somente conosco, elas fossem aperfeiçoadas.
Assim nós temos essa grande multidão de testemunhas ao nosso redor. Portanto, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós e continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós.
Epístola aos Hebreus capítulo 11 a capítulo 12 versículo 1, da versão da Bíblia Nova Tradução na Língua de Hoje

Onde Estás ?


Quantas mães desesperadas diante da morte de um filho gritaram bem alto: Onde Estás?
Quantos filhos perante a morte do Pai gritaram: Onde Estás?
Quanta gente, ao ouvir seus filhos gritar de fome, pedindo comida gemeram: Onde Estás?
Quantas famílias ao verem os seus preciosos filhos varridos pela droga disseram: Onde Estás?
Quantos doentes desesperados de dores com doenças terminais gritaram, gemeram, suspiraram, se revoltaram: Onde Estás?
Quantas prostitutas prisioneiras da vida, numa noite fria em que são obrigadas a permanecer na rua pensaram: Onde Estás?
Quantas viúvas desesperadas com seus filhos nos braços sentiram: Onde Estás?
Quantos olhos imersos em lágrimas perante as imagens de uma guerra disseram: Onde Estás?
Quantos corações acelerados depois de um roubo, um assalto, uma violência disseram: Onde Estás?
Quantas crianças ao serem abusadas, algumas pelos próprios pais, entre dentes perguntaram: Onde Estás?
Onde Estás? Pergunto Eu.
Onde Estás Justiça?
Onde estás Amor?
Onde Estás Esperança?
Onde Estás Vida?
Onde Estás Abrigo?
Onde Estás Pão?
Onde Estás Paz?
Onde Estás Caminho?
Onde Estás Vida?
Eu sei onde não está: não está no mundo,
não está nos "amigos",
não está nos políticos,
não está na droga,
não está no dinheiro,
não está na guerra,
não está na segurança,
não está nas casas trancadas e seguras,
não está ao meu redor.
Mas posso conseguir descobrir onde está.
Sim sei que não está ao meu redor,
sei que não está por baixo de mim,
sei, descubro cada dia, que está por cima,
muito acima,
bem acima do meu crer, do meu imaginar,
está muito acima daquilo que possa querer ou pensar.
Está sim e é real.
Sérgio Bernardo

Domingo Dia do Senhor


Domingo é o dia que os cristãos tradicionalmente dedicam ao culto ao seu Deus. No entanto o primeiro domingo do mês ainda tem algo de mais especial: é ao primeiro domingo do mês que habitualmente nas igrejas evangélicas se celebra a Santa Ceia. O partir do pão e a divisão do vinho em memória de Jesus, celebrando a sua morte, proclamando, anunciando, corroborando, confirmando, afirmando bem alto a sua ressurreição até que venha, leia bem, até que venha. O cristão está aguardando a volta, o regresso de Jesus.
Mas será que estamos aguardando que ele renasça, ou seja a sua reencarnação? A resposta é um inequívoco NÃO. Olhando para o exemplo concreto de Jesus, Ele encarnou, ou seja fez-se carne, nasceu, cresceu e morreu, uma única vez, tendo depois ressuscitado. A chave está aqui, Ele ressuscitou, não reencarnou, e é por isso que essa é tanbém a esperança do cristão, do seguidor de Cristo O Senhor, é que um dia vamos assistir também à ressurreição.
O Domingo como dia do Senhor é também uma velha polémica, pois afinal nos dez mandamentos, Deus ordenou que se guardasse o dia de Sábado para o Senhor, o sétimo dia da semana, uma vez que o domingo não é o sétimo mas sim o primeiro dia da semana. No entanto creio que quem conhece minimamente as escrituras não se deixará bloquear por isto. É claro quando o Senhor Jesus em Marcos 2:27 afirma "E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem, por causa do sábado." O homem tem mais valor do que o sábado, ou seja o que o Senhor queria ensinar era que mais importante do que haver um Sábado para o homem descansar e se dedicar a Deus, é haver um dia em que o homem se dedique a Deus. O mais importante não é a regra, o dia de Sábado, mas sim o princípio, um dia para Deus. Mais claro ainda é o que a Bíblia ensina em Atos 20:7 "No primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e alargou a prática até à meia-noite.", ou seja que os discípulos, e neste caso particular Paulo, não limitava nem dava exclusividade ao culto nos sábados, ele num domingo celebrou a Santa Ceia.
O Domingo é então um dia com um significado histórico muito profundo para os cristãos, nós os evangélicos, principalmente os pentecostais que tanto valorizamos as experiências com Deus na nossa vida espiritual, buscando as manifestações concretas da presença do Senhor, ainda mais entendemos a necessidade absoluta da união, da reunião, do ajuntamento, da família no culto e na adoração a Deus.
Domingo é um dia especial, o dia do Senhor.
Sérgio Bernardo

A DOR DE PERDOAR

TEXTO BASE

E disse: Um certo homem tinha dois filhos. E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente. E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. E foi e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado. E começaram a alegrar-se. E o seu filho mais velho estava no campo; e, quando veio e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças. E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar. E, saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas. Mas era justo alegrarmo-nos e regozijarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado.
Lucas 15:11-32 (Almeida Revista e Corrigida)



INTRODUÇÃO

Escolhi esta conhecida história bíblica com base deste pequeno estudo por achá-la uma perfeita história de perdão e de falta de perdão também. Temos um Pai que ansioso em perdoar. Esperava a volta do filho perdido, não olhando para os erros, apesar da dor da ofensa, a dor da distância era bem maior. Ainda sem uma palavra de pedido de perdão por parte do filho, já o Pai o abraçava e recebia. Mas no entanto o coração do Filho já estava verdadeiramente cheio de arrependimento.
Ali estava também um irmão ofendido, não com o irmão dissoluto, mas sim com o seu Pai. Sentia-se injustiçado, afinal ele merecia uma outra consideração do Pai, merecia ser amado - ele conquistou com esforço e serviço esse amor. Quem poderá condenar este filho mais velho? Quem se atreverá a achar-se superior aos sentimentos de confusão, injustiça, incompreensão, perca e sobretudo de abandono deste filho mais velho, que com cuidado, trabalho, esforço tinha conquistado um lugar ao lado do Pai. Quantos de nós partilhamos estes pensamentos.
Perdão, amor, compreensão, estão ligados a dor, sofrimento e perca, humildade.
Daí a importância de pensarmos em perdão. É necessário aprendermos a pedir perdão quando erramos, mas mais difícil ainda é saber perdoar. Sim, o Pai perdoou o filho, mas o irmão, o irmão não teve essa capacidade de perdoar: ele julgou-o, não o compreendeu, não recebeu o arrependimento do irmão; não entendeu o amor, o valor que o Pai atribuía ao irmão, não pelo que fez, mas apenas por ser quem era, filho do Pai. Enfim o irmão não sentiu que maior que a dor da ofensa é a dor da distância, a dor de um relacionamento desfeito, quebrado, interrompido.
Quantas vezes nos confrontamos com uma mesma situação. Somos ofendidos, o ofensor pede-nos perdão e depois não sabemos como lidar, o que fazer, como ficar, o que pensar após esse pedido. Outra vezes também não somos capazes sequer de aceitar esse pedido de perdão, não somos capazes de descer do pedestal da razão ou da crítica, não entendemos o nosso papel ao colocarmo-nos também em questão e se a “verdade”, a razão da ruptura não está também em nós.
Todas estas questões são muito importantes, daí a razão deste estudo que tem o objectivo muito simples de nos ajudar a ser perdoados e perdoadores, pacificadores, que são bem-aventurados, levando a que também, ao compreendermos que muitas vezes o perdão não é uma coisa imediata, mas um processo, por vezes lento, não nos sintamos culpados, por não sermos como Deus, como tantas vezes de forma errada ouvimos dizer.
Vamos reflectir então sobre a “Dor de perdoar”.




PORQUE DÓI TANTO PERDOAR?

Algum tempo depois Deus pôs Abraão à prova. Deus o chamou pelo nome, e ele respondeu: —Estou aqui.
Então Deus disse: —Pegue agora Isaque, o seu filho, o seu único filho, a quem você tanto ama, e vá até a terra de Moriá. Ali, na montanha que eu lhe mostrar, queime o seu filho como sacrifício.
No dia seguinte Abraão se levantou de madrugada, arreou o seu jumento, cortou lenha para o sacrifício e saiu para o lugar que Deus havia indicado. Isaque e dois empregados foram junto com ele. No terceiro dia, Abraão viu o lugar, de longe. Então disse aos empregados: —Fiquem aqui com o jumento. Eu e o menino vamos ali adiante para adorar a Deus. Daqui a pouco nós voltamos. Abraão pegou a lenha para o sacrifício e pôs nos ombros de Isaque. Pegou uma faca e fogo, e os dois foram andando juntos. Daí a pouco o menino disse: —Pai! Abraão respondeu: —Que foi, meu filho? Isaque perguntou: —Nós temos a lenha e o fogo, mas onde está o carneirinho para o sacrifício? Abraão respondeu: —Deus dará o que for preciso; ele vai arranjar um carneirinho para o sacrifício, meu filho. E continuaram a caminhar juntos. Quando chegaram ao lugar que Deus havia indicado, Abraão fez um altar e arrumou a lenha em cima dele. Depois amarrou Isaque e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Em seguida pegou a faca para matá-lo.
Mas nesse instante, lá do céu, o Anjo do SENHOR o chamou, dizendo: —Abraão! Abraão! —Estou aqui—respondeu ele. O Anjo disse: —Não machuque o menino e não lhe faça nenhum mal. Agora sei que você teme a Deus, pois não me negou o seu filho, o seu único filho. Abraão olhou em volta e viu um carneiro preso pelos chifres, no meio de uma moita. Abraão foi, pegou o carneiro e o ofereceu como sacrifício em lugar do seu filho. Abraão pôs naquele lugar o nome de “O SENHOR Deus dará o que for preciso.” É por isso que até hoje o povo diz: “Na sua montanha o SENHOR Deus dá o que é preciso.”
(Génesis 22:1-14 – Nova Tradução na Língua de Hoje)

Em verdade, em verdade vos digo que, se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte. Disseram-lhe pois os judeus: Agora conhecemos que tens demónio. Morreu Abraão e os profetas; e tu dizes: Se alguém guardar a minha palavra, nunca provará a morte. És tu maior do que o nosso pai Abraão, que morreu? E também os profetas morreram: quem te fazes tu ser? Jesus respondeu: Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; quem me glorifica é meu Pai, o qual dizeis que é vosso Deus. E vós não o conheceis, mas eu conheço-o: e, se disser que não o conheço, serei mentiroso como vós; mas conheço-o e guardo a sua palavra. Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se. Disseram-lhe pois os judeus: Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão? Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse eu sou.
(João 8:51-58 – Almeida Revista e Corrigida Edição de 1969)

Perdoar dói. Perdoar é difícil. Perdoar implica muitas vezes um acto de sacrifício. Sim, ao contrário do que muitas vezes pensamos, não é só pedir perdão que é difícil, perdoar pode por vezes ser muito mais difícil.
Escolhi dois textos bíblicos para encabeçarem esta parte que aparentemente nada têm entre si. Mas não é bem assim. Jesus estava a falar do primeiro dos textos, da história aí contada, quando no segundo texto afirmou “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se.” Muita confusão isto fez aos Judeus, afinal Jesus tão novo, como poderia ter sido visto por Abraão.
Mas sim um dia Abraão viu o dia de Jesus. Este homem foi chamado por Deus para sair do seio da sua família, dirigir-se para o deserto, recebeu a promessa de que seria pai de muitas nações, que a sua descendência seria como as estrelas do céu, no entanto a sua esposa era estéril. Que contradição terrível, como encheria os nossos corações de dúvida. Porém Abraão não duvidou, manteve-se firme nas promessas do seu Deus. Tinha deixado todas as suas raízes por Ele, tinha deixado toda a segurança e todas as suas referências culturais e familiares por este Deus, claro que não duvidaria – teria sempre fé. Com o passar do tempo, porém, a dúvida surgia. A idade de Abraão e de Sara avançava e filhos nada. Onde estava afinal o cumprimento da promessa de Deus. Penso por vezes que de vez em quando Abraão devia pensar que estava louco, afinal tinha dirigido toda a sua vida, abandonado toda a sua família e nbação por causa de uma ilusão. Não sei se estas dúvidas assaltaram o coração de Abraão, mas sei que, se estivesse no seu lugar, certamente iria pensar assim. Surgiu então uma ideia. Bem se o filho não nasce com Sara, quew era estéril, nasce com outra. Abraão, devidamente autorizado pela esposa, engravida uma escrava da sua casa. Nasce um filho, de nome Ismael, que no entanto, para seu espanto, lhe foi dito por Deus, que aquele não era o filho da promessa. Deus disse a Abraão que apesar do ventre envelhecido de Sara, esta ainda daria à luz um filho. Abraão riu-se e Deus não gostou. Aquele riso era sobretudo um gesto de dúvida, de descrença, de falta de confiança, de fé, em Deus. Mas Isaque, o filho da promessa, apesar da dúvida e após longa espera do Pai nascia. Ali estava o milagre, o filho esperado e prometido por Deus ali estava.
Porém um dia Deus provou este homem. Idoso, duro como o sol do deserto, mas agora de coração moldado e moldável à vontade de Deus. Deus pediu o seu filho em sacrifício. Ele mesmo, o Pai, teria que entregar à morte o filho da promessa – o filho prometido e tão ansiosamente aguardado teria de morrer.
Eu nunca entregaria o meu filho à morte. Seria incapaz e por isso peço em cada dia perdão a Deus. Mas Abraão foi capaz. Tudo preparou até ao momento em que de cutelo no ar iria desferir o golpe mortal sobre Isaque. É também de ressaltar a sujeição, a entrega voluntária do filho. Este já era um rapaz, um adolescente, perfeitamente capaz de resistir ao pai. No entanto não o fez. Completamente rendido ele entregou-se para o sacrifício. No último momento o Anjo aparece e diz a Abraão: “Não machuque o menino e não lhe faça nenhum mal. Agora sei que você teme a Deus, pois não me negou o seu filho, o seu único filho.” Foi aí nesse instante que Abraão viu o dia de Jesus. Ele teve um vislumbre do futuro, o plano de Deus tornou-se claro diante dos seus olhos – Abraão viu Deus a entregar o seu Filho às morte e este a dar-se voluntariamente, tudo isto para que a ofensa, a injustiça, o pecado do homem pudessem ser perdoados.
Perdoar dói, e dói muito.
Mas vamos aprofundar um pouco mais a questão e responder à pergunta que dá título a esta parte: Porque dói tanto perdoar?

Porque é consequência de uma ofensa

Perdoar dói tanto porque é resultado de uma ofensa. Houve alguém com quem nos relacionámos num determinado momento que teve uma acção ou uma omissão que provocou em nós um sentimento de ofensa, provocou em nós tristeza, mágoa, dor, desilusão, entre muitos sentimentos, levando a que esse relacionamento se tornasse pouco amistoso, ou até interrompido mesmo.

A ofensa por acção

§ A ofensa por omissão
Porque vai contra o nosso instinto de auto-preservação
§ A defesa do “animal” humano
§ O instinto de magoar
§ Dar a outra face
Porque ofende o nosso orgulho
§ A nossa auto-estima
§ O amor próprio
§ O pecado do orgulho
§ A vaidade ofendida, outra forma de orgulho
Porque até a Deus doeu perdoar
§ A dor de Deus por Adão
§ A dor de Deus por Noé
§ A dor de Deus por Abraão
§ A dor de Deus por Israel
§ A dor de Deus por Cristo em amor do Homem
O que perdoar não é.
Julgar
§ Tirar conclusões precipitadas
§ Exigir do ofensor o que não estamos dispostos a cumprir em situação inversa
§ A posição de superioridade moral
§ Humilhar
Ter razão
§ O vazio da razão
§ O engano da emoção
§ O diálogo acertivo
Ofender
§ Ofender a integridade pessoal
§ Ofender a integridade dos que amamos
§ Ofender o próximo
Procurar culpados
§ O bode expiatório
§ O perdão por interposta pessoa
A quem devo perdoar?
Ao próximo
§ Quem é o próximo
§ Qual a importância de perdoar a alguém que não conheço
Ao inimigo
§ Quem é o meu inimigo
§ Porque perdoar ao inimigo
§ Como ultrapassar o desejo de o magoar ainda mais (vingança)
A quem se arrepende da ofensa feita
§ A espera do arrependimento
§ Induzir ao arrependimento
§ Entender um arrependimento
A todos quantos a mágoa for pior do que o perdão
§ Perdoar sem arrependimento
§ O exemplo de Deus
§ Um coração puro
O que é afinal o perdão?
Aceitar o arrependimento
§ Receber o perdão sem superioridades e humildade
§ Empatia com o ofensor
§ Ajudar a que não haja reincidência
Viver com a ofensa
§ Uma ofensa profunda
§ A vida depois da ofensa
§ Olhando nos olhos do ofensor
Crescer com a ofensa
§ O que se aprende
§ O crescimento pessoal
§ A escola de Deus
Superar o instinto de rebuscar as ofensas
§ Não atirar à cara
§ Não dizer “outra vez”
Esquecer
§ Perdoar à maneira de Deus
§ Será possível esquecer?
É possível perdoar?
Não é possível perdoar como Deus
§ O perdão de Deus é total
§ O perdão de Deus é permanente
§ O perdão de Deus é profundo
§ O perdão de Deus é perfeito
É possível perdoar com a ajuda de Deus
§ A busca do varão perfeito
§ Perdoar como Deus nos perdoou
§ Perdoar totalmente como Homem
§ Perdoar permanentemente como Homem
§ Perdoar profundamente como Homem
§ Perdoar perfeitamente como Homem
Perdoar tem de ser possível
§ O mandamento do perdão
§ Perdão: o cimento de uma forte relação
Existem diferentes formas de perdoar diferentes ofensas?
Sim cada ofensa tem sua forma de perdoar
§ A estrutura do perdão
§ O nosso olhar e sentir é que são diferentes
Perdão no casamento
§ A fidelidade
§ A cama
§ Os filhos
§ A casa
§ Os outros
§ A Igreja
Perdão na amizade
§ O amigo verdadeiro
§ A verdade
§ A sinceridade
§ A distância
§ Terramotos
Perdão na relação entre pais e filhos
§ O amor de Deus
§ A ofensa dos pais
§ A ofensa dos filhos
Perdão entre irmãos
§ Cresceste comigo
§ A casa do irmão
§ A ofensa que não quer sarar
Perdão na Igreja
§ Viver em comunidade
§ A Igreja e a Bíblia
§ Unidade na diversidade
§ O mesmo Espírito
Quantas vezes devo perdoar a alguém as suas ofensas?
Setenta vezes Sete
§ Os setes de Deus
§ 490 vezes será o suficiente
§ Quantas vezes ofendo eu
O coração abundante em perdão
§ O coração do Pai
§ O coração do Servo
§ O coração do Adorador
Posso recuperar o meu relacionamento depois de perdoar?
Não se apenas parece que perdoas
§ O perdão do fariseu
§ O endurecimento do coração
Sim se realmente perdoares
§ O perdão sincero
§ O perdão valoroso
O que o amor tem a ver com o perdão?
O amor é a base do perdão
§ Só existe ofensa se existir amor
§ Só existe perdão se existir amor
Devemos perdoar com amor e compreensão
§ O valor do amor
§ A compreensão: “eu também peco”
O objectivo do perdão é recuperar um amor ferido
§ A dor do relacionamento ferido
§ Qual é a maior dor
§ Olhar e perdoar
(Estudo apenas parcialmente desenvolvido, apresentado apenas o resto da estrutura)
Sérgio Bernardo

Plano das Dispensações

INTRODUÇÃO
Deus criou o universo e todas as coisas visíveis e invisíveis, criou o mundo, todos os seres que nele habitam e por fim, como coroa da sua criação, criou o homem. Um ser com um corpo, mas também com uma alma, uma personalidade, vontade própria, sensibilidade, discernimento, enfim um ser pessoal como o próprio criador, e com um espírito, tal como Deus é espírito.
Deus mantinha um relacionamento íntimo com o homem e a mulher, passeava com eles, falava com eles, havia um profundo e genuíno amor entre eles. Pois, existia essa verdade no amor que sentiam porque Deus criou o homem com livre arbítrio, a capacidade de fazer escolhas, logo o ser humano apenas amaria e se relacionaria com Deus se quisesse, caso contrário Deus teria criado um “robot” programado para lhe demonstrar afecto, porém o seu relacionamento e amor nunca seria real.
No centro do jardim paradisíaco que Deus criou para o seu homem amado, Ele colocou uma árvore dizendo ao primeiro casal que esta seria a única excepção para eles, a única de que não poderiam comer o fruto. Aparentemente seria fácil obedecer a Deus permanecendo no seu amor, tinham tudo, apenas teriam de ficar perto do seu Criador, optando pela obediência, evidenciando o seu amor voluntário pelo seu Deus.
No entanto, apesar da indução feita pelo adversário de Deus junto da primeira mulher, foi por escolha própria e voluntária que o primeiro casal desobedeceu a Deus, Lhe virou as costas e optou por rejeitar o amor incondicional que lhes tinha sido oferecido por Deus.
Aqui começou todo um plano tendo em vista a restauração do plano inicial de Deus para o homem: a sua busca através dos séculos por homens e mulheres dispostos a voluntariamente amar e viver com Ele. Esta demanda exigia também a redenção desses seres, uma vez que embora Deus seja amor, Ele é também justiça, e deste “conflito interior” no coração de Deus, entre o seu amor e a sua justiça, que a sua misericórdia “concebeu” este plano por dispensações que iremos estudar.
Fica claro após este estudo que existe uma intenção clara de Deus no decorrer da história humana.
Em cada parte do estudo vamos abordar uma das dispensações da história da humanidade. Estas sim são as verdadeiras eras ou períodos em que a história deveria de estar dividida e não na clássica divisão da Pré-história, da História, da Idade Média do Renascimento, da Época Contemporânea, do Modernismo ou do Pós-modernismo. Por muito que todas as realidades históricas tenham importância, é por demais evidente que no decorrer de todo esse tempo, o plano de Deus das dispensações, tendo em vista a redenção e restauração da humanidade ao plano original de Deus, está por cima e sobre todas as épocas históricas.
É importante nesta altura dar uma definição de dispensação, até para justificar o porquê da divisão que apresento, uma vez que outros têm feito uma outra divisão do plano de Deus para a humanidade. Em primeiro lugar, importa dar a definição de dicionário para a palavra dispensação: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define dispensação como “acto ou efeito de dispensar; dispensa; acto ou efeito de distribuir, dividir, repartir; acto ou efeito de prestar, fornecer; acto ou efeito de conceder, deferir”. Perante esta definição técnica uma pergunta se impõe: Porquê chamar a estes períodos de dispensações e o que são então dispensações no sentido do estudo teológico que estamos a encetar?
A resposta a esta pergunta é que após o acto de rebelião e rejeição do primeiro casal para com o seu Criador, toda a espécie humana se separou de Deus e optou por viver afastado d’Ele, merecendo não mais do que rejeição e castigo da parte de Deus. Porém Ele optou por procurar reatar um relacionamento com o ser humano, dispensando do seu favor para connosco, apesar deste favor não ser minimamente merecido, encontrando meios e formas de abrir um caminho pelo meio da sua justiça para que esse relacionamento se tornasse possível, restaurando a humanidade, ao longo do desenvolvimento deste plano, à originalidade da intenção criadora de Deus. Claro que se torna óbvio, para quem está familiarizado com o léxico teológico, que favor imerecido é a definição teológica de Graça de Deus. Embora muitas discussões aqui coubessem, apesar de chavões como “Havia graça na lei tal como há lei na graça” podemos concluir sem mais, apenas partindo destas observações que graça é um elemento, um dom de Deus que atravessa todas as dispensações e todas as épocas da história. Não podemos dizer o mesmo da lei, podemos afirmar sim, que sendo Deus o ofendido e sobretudo o soberano, e absoluto em valores e atributos pessoais, toma para si a imposição das “regras do jogo” de como nos chegaremos a Ele, até porque é o único com poder para dirigir a historia no curso que entende.
Concluímos assim que o que, segundo a definição técnica dada, o que Deus dispensa, distribui, divide, reparte, presta, fornece, concede e defere é do seu favor imerecido, em se relacionar com o homem, segundo um plano e uma intenção que tem para a humanidade.
Chegamos então à definição de dispensação: dispensação é um período de tempo na história da humanidade em que Deus, mediante um pacto realizado com um homem ou um grupo de homens, concede em se relacionar amorosamente, alterando em cada pacto a forma e as condições desse relacionamento e do culto a Ele devido, revelando-se um pouco mais em cada dispensação.
Ao entrarmos em cada parte deste estudo vamos poder estudar o seguinte: o nome dessa dispensação – e o porquê desse nome ; o pactuante – aquele ou aqueles com quem o pacto é estabelecido; uma descrição panorâmica dessa dispensação e por fim o princípio adjacente a essa dispensação, contextualizando-a no plano geral da redenção.
Espero que no final a compreensão do privilégio gozado por nós em podermos nos relacionar com Deus esteja manifestamente valorizada.






PARTE I
Vamos começar pelo princípio.

A serpente, que era o mais astuto de todos os animais selvagens criados por Deus, disse à mulher: "Com que então Deus proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim!" Mas a mulher respondeu-lhe: "Nós podemos comer o fruto das árvores do jardim. Só nos proibiu de comer do fruto da árvore que está no meio do jardim. Se tocásse­mos no seu fruto, morreríamos." A serpente replicou-lhe: "Vocês não têm que morrer. De maneira nenhuma! O que acontece é que Deus sabe que, no dia em que comerem desse fruto, vocês abrirão os olhos e ficarão a conhecer o mal e o bem'', tal como Deus." A mulher pensou então que devia ser bom comer do fruto daquela árvore, que era apetitoso e agradável à vista e útil para alcançar sabedoria. Apanhou-o, comeu e deu ao seu marido que comeu também. 'Nesse momento, abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que andavam nus. Coseram então folhas de figueira, para com elas poderem cobrir a cintura.
Nisto, ouviram que o Senhor Deus andava a passear no jardim, pela fresca da tarde, e o homem foi-se esconder com a sua mulher no meio das árvores do jardim. 9O Senhor Deus chamou pelo homem e perguntou: "Onde estás?" O homem respondeu: "Apercebi-me de que andavas no jardim; tive medo, por estar nu, e escondi-me." Deus perguntou-lhe: "Quem é que te disse que estavas nu? Será que foste comer do fruto daquela árvore, que eu tinha proibido?" O homem replicou: "A mulher que me deste para viver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi." O Senhor Deus disse então à mulher: "Que é que fizeste?" A mulher respondeu: "A serpente enganou-me e eu comi." Deus disse então à serpente: "Já que fizeste isto, maldita sejas tu entre todos os animais, domésticos ou selvagens. Terás que arrastar-te pelo chão e comer terra, durante toda a tua vida. Farei com que tu e a mulher sejam inimigas, bem como a tua descendência e a descendência dela. A descendência da mulher há-de atingir-te a cabeça e tu procurarás atingir-lhe o calcanhar''. E à mulher disse: "Vou fazer com que sofras os incómodos da gravidez e terás que dar à luz com muitas dores. Apesar disso, sentirás forte atracção pelo teu marido, mas ele há-de mandar em ti." E ao homem disse: "Já que deste ouvidos à tua mulher e comeste do fruto da árvore da qual eu te tinha proibido de comer, a terra fica amaldiçoada por tua causa; e será com enorme sacrifício que dela hás-de tirar alimento, durante toda a tua vida. Só produzirá espinhos e cardos e tu terás de comer a erva que cresce no campo. Só à custa de muito suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado. Na verdade, tu és pó e em pó te hás-de transformar de novo."
O homem, Adão, deu à sua mulher o nome de Eva isto é Vida, porque ela era a mãe de todos os seres humanos. O Senhor Deus arranjou para o homem e para a sua mulher roupas de pele de animal para que se vestissem com elas.
Génesis 3:1-21 – Bíblia “A Boa Nova”

Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu.
Génesis 3:21 – Bíblia de Jerusalém

Após a criação do homem deu-se o episódio acima descrito: a queda do homem. O relacionamento quebrado iria ser restaurado por Deus. Vemos o vislumbre do plano de Deus no versículo 15, que é também conhecido como ”protoevangelho”, por ser a primeira referência messiânica da Bíblia.
O plano das dispensações de Deus começa aqui, e o primeiro pactuante foi Adão. A primeira dispensação tem por isso o nome de Dispensação Adâmica. Alguns autores atribuem ainda a existência de uma dispensação anterior à dispensação Adâmica, porém isso não faz sentido, pois o plano redentor apenas tem nexo como tal após a queda do homem.
Podemos assistir à constituição desta dispensação no episódio bíblico anteriormente apresentado. Deu-se a queda, o homem por isso escondeu-se de Deus, que por sua vez, como sempre, o buscava. Perante o pecado Deus disse que toda a natureza e a vida do homem seriam alteradas. Porquê? Quereria Deus um amor cego e tornou-se mau e cruel? Claramente que não, mas apesar do amor de Deus pelo primeiro casal não ter diminuído, Ele não poderia simplesmente passar por cima do gesto de Adão e Eva, tornando-se um Deus injusto que abdica da sua integridade e santidade, apenas por amor. Isto seria a aniquilação existencial de Deus. Na verdade o verbo poder não é bem aplicado, uma vez que a impossibilidade aqui apresentada é íntima, não imposta ou existencial, mas sim que a forma absoluta da existência de Deus, que faz d’Ele a ser único e poderoso que é, não faria sentido se contrariasse a sua própria natureza. No entanto o plano elaborado para a redenção da humanidade demonstra também por si só a multiforme e absoluta sabedoria de Deus. É claro que toda a linguagem que encontramos para explicar as coisas celestiais está limitada à existência finita que possuímos, indo tudo o que a Deus diz respeito muito além do que podemos pensar.
Na dispensação Adâmica assistimos a Deus cobrindo a nudez de Adão e Eva com peles de animais. No versículo da versão bíblica “A Boa Nova” diz que Deus “arranjou” as vestes, porém na outra versão também apresentada diz que Deus “fez”. Deus não apenas foi buscar, criou, trouxe à existência, mas “fez” as vestes, deixando claro que houve morte de animais, que nada tinham a ver com o gesto louco de Adão e Eva, mas que no entanto perderam a sua vida para cobrirem a nudez do primeiro casal, ensinado assim o primeiro princípio ao ser humano: o princípio do sangue, em que para haver remissão de pecados é necessário o derramamento de sangue inocente, por forma a que o preço do pecado seja pago e a justiça de Deus possa ser “satisfeita”, e o ser humano se possa assim de novo aproximar de Deus.

E sem derramamento de sangue não há remissão.
Hebreus 9:22b – Almeida Revista e Corrigida

Esta verdade eterna tornou-se na primeira forma de Deus dispensar do seu favor, Ele permitiu o acesso do Homem à sua pessoa, desde que houvesse sangue derramado para cobrir a nudez espiritual em que se encontravam. E é fácil demonstrar que aprenderam a lição. A história clássica de Abel e Caim, o primeiro homicídio, tem por base a rebelião de um homem que não quis obedecer à forma de culto estabelecida por Deus.

E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu, e teve a Caim, e disse: Alcancei do SE­NHOR um varão. E teve mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra. E aconteceu, ao cabo de dias, que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogénitos das suas ovelhas e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o seu semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E, se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e para ti será o seu desejo, e sobre ele dominarás.
Génesis 4:1-7- Almeida Revista e Corrigida

Os primeiro filhos de Adão e Eva: Abel, pastor de ovelhas; e Caim, agricultor. Em certo dia estes irmãos foram à presença de Deus, ambos levaram do fruto do seu trabalho, queriam ambos dar a Deus. Mas Deus agradou-se, “atentou” na linguagem da tradução bíblica apresentada, apenas para a oferta de Abel. Aparentemente era apenas na oferta que o culto que ambos foram prestar diferia, pelo que será interessante nos debruçarmos um pouco mais na diferença das ofertas: comecemos pela oferta de Caim – ele era agricultor e levou do melhor que a terra lhe tinha dado (podemos saber que era do melhor, ou das primícias do seu trabalho através da expressão “E Abel também trouxe dos primogénitos”, logo após a descrição da oferta de Caim), não podemos dizer que Caim não queria dar o melhor para o Senhor, ele queria agradecer certamente a Deus por lhe ter proporcionado uma boa colheita; a oferta de Abel eram as primícias do seu gado e a sua gordura. Qual a diferença: Deus tinha estabelecido desde o princípio que o culto a Ele, a aproximação à sua pessoa implicava o derramamento de sangue. A prova de que Caim sabia disso, sem se preocupar com isso apesar de tudo foi que Deus lhe disse “Se bem fizeres não haverá aceitação para ti?”, segundo uma nota de tradução da Bíblia de Jerusalém a tradução mais aproximada desta expressão será “Não é que, se ages bem, elevação, e se não ages bem à tuas porta o pecado”, deixando bem claro pelo verbo agir “ages” que Caim bem conhecia a forma correcta de se aproximar de Deus.
Após este episódio, tendo Caim permanecido em sua rebelião e pecado, acabou por matar a seu irmão, revelando de facto tudo o que ia no seu coração. Caim de facto não queria se relacionar com Deus, pois ainda quando está a ser repreendido pelo Senhor por ter assassinado o seu irmão, diz que a sua maldade é maior do que a que poderá ser perdoada. Ora com Abel morto e Caim longe da presença de Deus, apenas com o nascimento do terceiro filho homem de Adão e Eva a humanidade começou a atentar para a voz de Deus e o plano redentor prosseguiu.

Adão teve de novo relações com a sua mulher e esta deu à luz outro filho e chamou-se Set porque Deus lhe tinha concedido outro filho, para substituir Abel, que Caim tinha assassinado. Também Set teve um filho que se chamou Enós. Foi desde então que se começou a invocar o nome do Senhor.
Génesis 4:25,26 – Bíblia “A Boa Nova”

Em resumo, a primeira dispensação foi a Dispensação Adâmica, em que o pactuante foi Adão, o princípio foi o do sangue, que sem derramamento de sangue não há remissão de pecado, e que consistia na morte de um animal para que o homem cobrisse a sua nudez espiritual e pudesse aceder à presença de Deus.




PARTE II
Da descendência de Set e de Caim toda a terra foi povoada e a maldade do Homem também se espalhou. Deus perante um cenário de maldade e afronta à sua santidade em dimensões extremas intentou na destruição total da humanidade. Porém um homem, da descendência de Set, era honesto e andava com Deus. Esse homem chamava-se Noé. Porém Noé não era perfeito, pois como todos os seres humanos até aos dias de hoje, ele “achou graça aos olhos de Deus”:

Noé porém achou graça aos olhos do SENHOR.
Estas são as gerações de Noé: Noé era varão justo e reto em suas gerações; Noé andava com Deus.
Génesis 6:8,9 – Almeida Revista e Corrigida

Noé não era um supercrente que nunca pecava ou errava, era sim alguém que guardava a sua dispensação, mantinha um relacionamento com Deus: “Noé andava com Deus”.
Apesar disso Deus manteve a sua decisão de destruir a humanidade, no entanto esta iria ser “refundada” partindo da família deste homem que achou graça aos olhos de Deus.
Com Noé chegamos à segunda dispensação do plano redentor de Deus: a Dispensação Noética. O Senhor fez um pacto com Noé. Toda a humanidade seria destruída, porém ele e a sua família seriam poupados, bem como seriam os depositários da herança genética de tudo o que Deus tinha criado, sendo responsável por pregar o arrependimento a todos os homens, bem como de construir uma arca onde se refugiaria, em conjunto com a sua família e um casal de todas as espécies de animais terrestres.

Deus disse a Noé: "Chegou o fim de toda car­ne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra. Faze uma arca de madeira resinosa; tu a farás de caniços e a calafetarás com betume por dentro e por fora. Eis como a farás; para o comprimento da arca, trezentos côvados; para sua largura, cinquenta côvados; para sua altura, trinta côvados. Farás um teto para a arca e o rematarás um côvado mais alto; farás a entrada da arca pelo lado, e farás um primeiro, um segundo e um terceiro andares.
"Quanto a mim, vou enviar o dilúvio, as águas, sobre a terra, para exterminar de debaixo do céu toda carne que tiver sopro de vida: tudo o que há na terra deve perecer. Mas estabelecerei minha aliança contigo e entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. De tudo o que vive, de tudo o que é carne, farás entrar na arca dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada es­pécie de todos os répteis do solo, virá contigo um casal, para os conserva­res em vida. Quanto a ti, reúne todo tipo de alimento e armazena-o; isto servirá de alimento para ti e para eles." Noé assim fez; tudo o que Deus lhe ordenara, ele o fez.
Génesis 6:13-22 – Bíblia de Jerusalém

Mas contigo estabelecerei o meu pacto; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, e a tua mulher, e as mulheres de teus filhos contigo.
Génesis 6:18 – Almeida Revista e Corrigida

Mas contigo farei um pacto de aliança. Deves entrar na arca , tu e os teus filhos, a tua mulher e as dos teus filhos.
Génesis 6:18 – Bíblia “A Boa Nova”

Noé foi o pactuante deste novo pacto que Deus fez. Claro que este novo pacto não aniquilou o anterior, Deus nunca se esquece das promessas e alianças que faz, Ele deu uma nova perspectiva da sua graça, abriu um pouco mais o seu plano, porém nunca deixou cair a aliança anterior. Ou seja, embora Deus nesta dispensação ensine um novo princípio, introduza uma nova forma no modo do Homem se relacionar com Ele, o princípio do sangue continua a ser válido e exigido a quem, sendo pecador, deseje entrar na presença de Deus, santo e puro, e com Ele manter um relacionamento.
Se já sabemos a esta altura que o nome da dispensação é Noética e o pactuante é Noé, importa então saber que o princípio ensinado por Deus nesta dispensação é o Princípio da Obediência, ou melhor ainda o Princípio da Obediência à Palavra de Deus. O porquê deste enunciado? Na verdade a grande diferença entre esta aliança de Deus com Noé, daquela anteriormente estabelecida com Adão, é que nesta Deus não foi quem fez primeiro e deu o exemplo, ensinando com acções aos olhos do homem aquilo que pretendia dele. Com Adão e Eva, conforme vimos na Parte I, foi o Senhor quem fez as túnicas de peles para eles, matando diante dos seus olhos animais inocentes para cobrir a sua nudez. Com Noé não. Atentemos para o texto bíblico apresentado em seguida, sendo uma outra tradução dos versículo já apresentado de Génesis capítulo seis, versículo nove:

Esta é a história de Noé. Noé era a única pessoa justa e honesta que havia no seu tempo e cumpria sempre a vontade de Deus.
Génesis 6:9 – Bíblia “A Boa Nova”

Noé era um homem descendente de Set e Enós, aqueles que iniciaram o culto a Deus. Certamente que conhecia bem que ele teria de se chegar a Deus com sacrifício, e em tudo procurava ser bom e honesto. Claro que Noé era pecador, senão não seria necessário ter sido objecto da Graça de Deus. Este versículo nos mostra que Noé já vivia em obediência. Qual então a grande diferença? A grande diferença está em que Deus falou directamente com Noé, deu-lhe instruções concretas para vida, a sua desobediência implicava a morte. Na dispensação Adâmica o Homem repetiu o gesto redentor de Deus, dado como exemplo da forma de culto exigida, na presente dispensação Noética, Deus não agiu, ordenou o acto redentor e estabeleceu a aliança, possibilitando a Noé a opção de entrar nesta aliança, ou pacto, com Deus. O Senhor ordenou a construção da arca e todas as outras coisas que lemos e Noé entrou no pacto, na aliança de Deus. O Senhor disse no versículo 18 do capítulo seis de Génesis que estabeleceria com Noé a sua “aliança” ou o seu “pacto”, e esta aliança é consumada, ou seja Noé acede no cumprimento desta aliança ao fazer tudo quanto Deus lhe tinha ordenado.

Quanto a mim, vou enviar o dilúvio, as águas, sobre a terra, para exterminar de debaixo do céu toda carne que tiver sopro de vida: tudo o que há na terra deve perecer. Mas estabelecerei minha aliança contigo e entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. De tudo o que vive, de tudo o que é carne, farás entrar na arca dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada es­pécie de todos os répteis do solo, virá contigo um casal, para os conserva­res em vida. Quanto a ti, reúne todo tipo de alimento e armazena-o; is to servirá de alimento para ti e para eles." Noé assim fez; tudo o que Deus lhe ordenara, ele o fez.
Génesis 6:17-22 – Bíblia de Jerusalém

Mais tarde, após o dilúvio, Deus faz acompanhar o consumar desta aliança com a promessa de que nunca mais o mundo iria ser destruído por um dilúvio, deixando o arco-íris como sinal desta aliança feita com Noé.


Deus falou assim a Noé e a seus filhos: "Eis que estabeleço minha aliança convosco e com os vossos descendentes depois de vós, e com to­dos os seres animados que estão convosco: aves, animais, todas as feras, tudo o que saiu da arca convosco, todos os animais da terra. Estabeleço minha aliança convosco: tudo o que existe não será mais destruído pelas águas do dilúvio; não haverá mais dilúvio para devastar a terra."
Disse Deus: "Eis o sinal da aliança que instituo entre mim e vós e to­dos os seres vivos que estão convosco, para todas as gerações futuras: porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra. Quando eu reunir as nuvens sobre a terra e o arco aparecer na nuvem, eu me lembrarei da aliança que há entre mim e vós e todos os se­res vivos; toda carne e as águas não mais se tornarão um dilúvio para des­truir toda carne. Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lem­brarei da aliança eterna que há entre Deus e os seres vivos com toda carne que existe sobre a terra."
Deus disse a Noé: "Este é o sinal da aliança que estabeleço entre mim e toda carne que existe sobre a terra."
Génesis 9:8-17 – Bíblia de Jerusalém

A partir deste momento o plano de redentor de Deus já estava revelado um pouco mais. O Senhor já tinha deixado dois princípios desse plano: o Princípio do Sangue e o Princípio da Obediência à Palavra de Deus. Porém não parou aqui.




PARTE III
Antes de entrarmos concretamente no estudo da terceira dispensação, importa fazer um pequeno resumo dos factos da narrativa histórica da Bíblia mais relevantes do período que medeia entre o estabelecimento da aliança Noética e a nova aliança, ou pacto, ou dispensação, que vamos estudar, ou seja do período em que a dispensação Noética esteve em vigor.
Antes demais importa aqui reforçar que o aparecimento de uma nova dispensação não anula a seguinte, o que faz sim é acrescentar revelação ao plano de Deus, e o que pode alterar é a forma de culto exigida por Deus. Com a aliança Noética aprendemos que Deus deseja obediência à sua Palavra, no entanto o Homem bem sabia que a alma que pecar morrerá e que sem derramamento de sangue não havia, nem há, nem haverá, remissão de pecados. Daí que eles bem sabiam a forma de culto que Deus exigia, e que no caso destas dispensações não foi alterada.
(Estudo não concluído)
Sérgio Bernardo





DEUS É AMOR

INTRODUÇÃO
Deus é amor. Esta declaração bíblica acerca da pessoa de Deus é fantástica, tanto mais que é rara em toda a Palavra de Deus. São poucas as vezes que surgem afirmações taxativas e simples acerca de Deus. Poucas vezes existem declarações tão vincadas, de simples e directas, acerca de como definir Deus, e é isso que torna quase extraordinária esta afirmação.
Contudo ao mesmo tempo que é simples e directa, as suas consequências são incríveis, e ao pensarmos um pouco mais nisso mesmo, podem até ser desafiadoras colocando os alicerces do que chamamos “vida cristã” em causa.
O amor como característica pessoal de Deus teve uma enorme influência em tudo o que se chama história da humanidade. Foi o grande factor de diferença entre uma história em que, por opção do Homem e afastamento deste, Deus deixaria de ter qualquer intervenção, e uma história, como acontece, em que Deus aparentemente está longe, mas está a encaminhar-se no sentido que Ele determinou.
O amor, por ser tão forte e intenso e profundo, torna-se por isso mesmo difícil de definir, então, a nossa sociedade, recheada de capacidades técnicas, sedenta de definição e ansiando por encaixotar e catalogar cada pedaço das nossas vidas, incapaz, como dito anteriormente, de definir esta poderosa força que é o amor, diluiu o seu sentido, trazendo-lha uma perca de força e de valor, contribuindo para o cinismo de então se viver numa época em que tudo é amor, mas em nada há amor e por nada se tem amor.
Será que sexo é amor? Ou talvez a paixão o seja? Será que o amor de mãe ainda existe? Será que se pode matar por amor? A amizade é um relacionamento de amor? Mas afinal o que é o amor?
Perante esta pergunta parece que encontramos a melhor resposta na Bíblia. O apóstolo Paulo na primeira carta aos Coríntios, no capítulo 13, dá aquela que será a melhor definição de amor que podemos encontrar em toda a literatura mundial. Paulo define o amor pela sua importância para a vida, principalmente, no contexto em que escreve, para a vida do cristão. Depois avança na sua definição mostrando o amor por duas características centrais: o ser sofredor e benigno. Claro que Paulo estava também com dificuldades em definir o que era o amor, mas no meio de uma carta tão cheia de conselhos e de ajudas, de resposta a dúvidas de uma igreja, com qualidades e virtudes, como a de Corinto, Paulo parou olhou de frente e escreveu esta definição de amor.
Claro que podemos falar da intervenção do Espírito Santo no processo de escrita desta carta que entrou no Cânon, mas por vezes pergunto-me se os escritores sagrados, e neste caso concreto Paulo, estariam, ou estaria consciente de que este texto, como muitos outros por si produzidos seriam reconhecidos como tendo sido inspirados por Deus, colocados lado a lado com os textos que desde muito novo aprendeu a amar e a admirar, onde a história e os feitos de Deus pelo seu povo ao longo dos tempos estavam descritos. Não sei o que acharia Paulo, mas ao ler este texto de I Coríntios 13, sinto a urgência de um servo que deseja comunicar aquilo que da sua alma brota abundantemente mas que por vezes se torna dão difícil de explicar aos outros. Paulo sentia um amor tremendo, olhava para o seu Deus e sentia o amor ainda maior, e tentou colocar em palavras limitadas e humanas o que sentia, de si e do seu Deus. Por isso, após falar do amor como sofredor e benigno, Paulo continua definindo o amor por aquilo que ele não é. Parece estranho definir o amor como não sendo invejoso, será que é possível alguém dizer que ama e ser invejoso? É, infelizmente. Não nos esquecemos que Paulo estava a escrever para uma igreja. “Felizmente” foi só em Corinto que os crentes diziam que se amavam e eram invejosos uns em relação aos outros. Por aqui me fico porque acho que as palavras de Paulo se tornam assim evidentemente úteis e certas.
Após isso, Paulo faz duas declarações muito fortes em jeito de conclusão, mas ao mesmo tempo abrindo caminho para o que vem a seguir. Infelizmente, estas duas afirmações estão nas nossas Bíblias em versículos diferentes em vez de estarem no mesmo, estamos a falar de quando nos versículos sete e oito está escrito o amor tudo sofre – repetindo a declaração inicial de que o amor é sofredor –, tudo crê, tudo espera, tudo suporta e nunca falha.
Em seguida Paulo entra numa dimensão que nos parece um tanto estranha e até despropositada, em que de repente fala de profecias que vão deixar de existir, serão aniquiladas, na expressão bíblica, mas creio que vem alguma luz sobre esta parte no versículo 10, quando está escrito que quando vier o que é perfeito, o que é em parte desaparecerá. Creio que Paulo está a falar do gozo pleno do amor no futuro escatológico, demonstrando a influência do amor de Deus no decurso da história humana. Mas vamos ficar por aqui, pois mais para a frente iremos debruçarmo-nos mais acerca deste assunto.
Depois Paulo fala da maturidade, trazendo o assunto do amor maduro e logo após vem de novo o amor futuro da plenitude do gozo da existência eterna na presença de Deus.
Paulo encerra depois esta fantástica definição de amor com uma linda e poderosa afirmação: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade. Estas três, mas a maior destas é o amor”. Interessante Paulo usar o feminino e não o masculino, ao dizer “estas três” em vez de “estes três”, porque normalmente colocaríamos a fé, a esperança e o amor como sentimentos, e portanto usar o masculino. Aparentemente para o apóstolo não são sentimentos, que são passageiros e enganosos, mas sim forças, forças tremendas e poderosas, capazes de mover montanhas, de ultrapassar todas as desilusões e entregarem o mais querido à morte, de levar a uma mudança na história do mundo.
Vamos então viajar um pouco pelo interior do texto bíblico, procurando mais inferências do sentido desta força, que é o amor, buscando esclarecimento entre tanta penumbra, revelando também assim um pouco mais do coração do nosso Deus.

TEXTO BÍBLICO BASE
Vamos aqui reproduzir o texto de I Coríntios 13, segundo diferentes traduções para a língua portuguesa. De alertar que em algumas surge a palavra “caridade”, mas que deve ser interpretada por “amor”.

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.
A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três; mas a maior destas é a caridade.
Almeida Revista e Corrigida

Ainda que eu falasse línguas,
as dos homens e as dos anjos,
se eu não tivesse a caridade,
seria como o bronze que soa
ou como o címbalo que tine.
Ainda que eu tivesse o dom da profecia,
o conhecimento de todos os mistérios
e de toda a ciência,
ainda que tivesse toda a fé,
a ponto de transportar montanhas,
se não tivesse a caridade,
eu nada seria.
Ainda que eu distribuísse
todos os meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
o meu corpo às chamas,
se não tivesse a caridade,
isso nada me adiantaria.
A caridade é paciente,
a caridade é prestativa,
não é invejosa, não se ostenta,
não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça,
mas se regozija com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
A caridade jamais passará.
Quanto às profecias, desaparecerão.
Quanto às línguas, cessarão.
Quanto à ciência, também desaparecerá.
Pois o nosso conhecimento é limitado,
e limitada é a nossa profecia.
Mas, quando vier a perfeição,
o que é limitado desaparecerá.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Depois que me tornei homem,
fiz desaparecer o que era próprio
da criança.
Agora vemos em espelho
e de maneira confusa,
mas, depois, veremos face a face.
Agora o meu conhecimento é limitado,
mas, depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora, portanto, permanecem a fé,
esperança, caridade,
estas três coisas.
A maior delas, porém, é a caridade.
Bíblia de Jerusalém

Ainda que eu seja capaz de falar todas as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, as minhas palavras são como o badalar de um sino ou o barulho de um chocalho. Ainda que eu tenha o dom de falar em nome de Deus e possa conhecer os seus planos e saber tudo; ainda que eu tenha uma fé capaz de transportar montanhas, se não tiver amor, não presto para nada. Ainda que eu dê em esmolas tudo o que é meu; ainda que me deixe queimar vivo, se não tiver amor, isso de nada me serve.
O amor é paciente e prestável. Não é invejoso. Não se envaidece nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos nem é egoísta. Não se irrita nem pensa mal. O amor não se alegra com uma injustiça causada a alguém, mas alegra-se com a verdade. O amor suporta tudo, acredita sempre, espera sempre e sofre com paciência. O amor é eterno. As profecias desaparecem; as línguas acabam-se, a ciência passa. Pois, tanto as nossas profecias como a nossa ciência são imperfeitas. Quando chegar aquilo que é perfeito, tudo o que é imperfeito desaparece. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Depois, tornei-me adulto e deixei o modo de ser de criança.
Agora, vemos as coisas como num espelho e de maneira confusa. Depois, vemo-las frente a frente. Agora, o meu conhecimento é imperfeito, mas depois vou conhecer como Deus me conhece a mim. Agora, existem três coisas: fé, esperança e amor. Mas a mais importante é o amor.
Bíblia “A Boa Nova”

Se eu tivesse o dom de falar línguas que não tivesse aprendido, e até mesmo as línguas todas do céu e da terra, mas não fosse capaz de amar os outros, não seria mais do que um instrumento de fazer barulho. Se eu tivesse o dom de profetizar e soubesse, por inspiração divina, tudo o que viesse a acontecer no futuro, e, enfim, se eu soubesse tudo sobre todas as coisas, mas não soubesse amar os outros, de que me serviria isso? E até mesmo que tivesse fé de forma a poder falar a uma montanha e fazê-la deslocar-se, isso não teria valor algum sem o amor. Ainda que desse tudo aos pobres, e deixasse que me queimassem vivo por pregar o Evangelho, mas se não amasse os outros, tudo seria inútil.
O amor é paciente e bondoso, nunca é invejoso nem ciumento, nem presunçoso, nem arrogante, nem grosseiro. O amor não exige que se faça o que ele quer. Não é irritadiço, e dificilmente suspeita do mal que os outros lhe possam fazer. Nunca fica satisfeito quando se pratica a injustiça, mas alegra-se quando a verdade triunfa. Quando amamos alguém somos leais para com ele custe o que custar. Acreditamos nele e esperamos dele sempre o melhor, mantendo-nos decididamente em sua defesa.
Todos os dons e poderes especiais que vêm de Deus terminarão um dia, porém, o amor há de sempre continuar. Um dia, tanto a profecia, como o falar línguas desconhecidas, e a especial sabedoria espiritual, todos esses dons desaparecerão. Nós agora sabemos muito pouco, mesmo com a ajuda de todos esses dons especiais; e até a pregação mais inspirada é ainda muito imperfeita. Mas quando a nossa vida se tiver tornado perfeita, completa, então cessará a necessidade desses dons especiais, aliás insuficientes que desaparecerão.
É como quando eu era criança: falava, pensava, raciocinava como uma criança. Mas quando me tornei homem deixei as coisas de crianças. Da mesma maneira, nós agora só podemos ver e compreender um pouco das coisas de Deus; é como se estivéssemos a ver um reflexo num espelho de má qualidade; mas um dia virá em que veremos de uma forma completa, face a face. Tudo quanto sei agora é obscuro e confuso, mas depois verei tudo com clareza, e tão claramente como Deus está vendo o interior do meu coração.
Há três coisas que hão de perdurar: a fé, a esperança e o amor; e destas três a maior é o amor.
O Livro

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa, ou como címbalo que tine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que possua a fé em plenitude, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que distribua todos os meus bens em esmola e entregue o meu corpo a fim de ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita.
A caridade é paciente, a caridade é benigna, não é invejosa; a caridade não se ufana, não se ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
A caridade nunca acabará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão e a ciência findará. Porque a nossa ciência é imperfeita e a nossa profecia também é imperfeita. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será abolido. No tempo em que eu erra criança, falava como criança, sentia como criança, raciocinava como criança; mas quando me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conheço de maneira imperfeita; Então, conhecerei exactamente, como também sou conhecido.
Agora subsistem estas três: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é caridade.
Tradução dos Padres Capuchinhos

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar

A IMPORTÂNCIA DO AMOR
Vamos agora começar então a nossa viagem pela definição paulina de amor, iniciando por olhar para a primeira declaração que o apóstolo faz: “Ainda que eu falasse”...
Como será que alguém pode olhar para este texto e não entender que Paulo considerava como algo de comum para qualquer cristão, para qualquer membro da igreja de Corinto, a quem ele se dirigia, a capacidade, ou melhor, a característica, ou melhor ainda, o dom de falar línguas, sejam dos homens ou dos anjos. Se alguém, por indouto ser, olhar para a expressão “línguas dos homens” e pensar que Paulo estava falando de ser um poliglota, certamente que entenderá que ele está falando de outras coisas ao dizer “dos anjos”. É então claro para este homem de Deus, que um ser humano pode falar línguas de homens e de anjos. Mas como pode ser isso?
Sem querer entrar em grandes discussões sobre o baptismo com o Espírito Santo e o enchimento que esse acontecimento traz, creio que se torna deveras importante ver o valor e até o comum que isso era entre os crentes primitivos, e não apenas entre os que estavam no cenáculo no dia de pentecostes, ou até na casa de Cornélio e noutros eventos, em que a Bíblia descreve, como tendo ocorrido o derramamento do Espírito, mas em toda e qualquer igreja e com todo e qualquer crente. Para Paulo é comum e normal. Portanto assim para nós também deve ser. Sim porque estamos olhando para um homem que teve a ousadia, e a autoridade, para um dia dizer “sede meu imitadores como também eu sou de Cristo”. Não são muitos aqueles que ao longo de toda a história do cristianismo, mesmo entre os primitivos apóstolos, podiam dizer tal coisa. E mais importante ainda, Paulo o escreveu, nunca foi desmentido, nem mesmo pelos apóstolos, sempre foi querido, e o Espírito Santo ainda mostrou ter sido o inspirador de tais palavras, ao ponto dessas terem sido incluídas no cânon neotestamentário. Maravilhoso não é.
Para Paulo era importante e era comum, pois ele escolhe este dom para começar a falar acerca de amor. Claro que ele vai buscar outros dons:
Dom das línguas – “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos”;
Dom da profecia - “E ainda que tivesse o dom da profecia”;
Dom da palavra da sabedoria – “e conhecesse todos os mistérios”;
Dom da palavra da ciência – “e toda a ciência”;
Dom da fé – “e ainda que tivesse toda a fé”.
Os dons espirituais são algo de maravilhoso e edificante para a Igreja, que Deus nos deu e nos dá, os dons espirituais são belas manifestações físicas e evidentes da presença do Senhor, os dons são lindas e refrescantes operações do Espírito Santo. Têm objectivos concretos, e, pegando na lista de dons existente em I Coríntios capítulo 12, podemos dividi-los em três grupos: o primeiro grupo são os dons de ensino – dom da palavra da sabedoria, dom da palavra da ciência; o segundo grupo são os dons de operação ou de actuação – dom de fé, dom de curar, dom da operação de maravilhas; e o terceiro e último grupo são os dons de revelação – dom da profecia, dom de discernir os espíritos, dom da variedade de línguas, dom da interpretação das línguas. Existem outras listas de dons, e autores que acrescentam os ministérios que Deus distribui à lista dos dons espirituais, embora não se faça aqui esse exercício, é interessante observar que todos esses “dons” se podem incluir num destes grupos anteriormente descritos. É necessário ressalvar que esta é uma divisão pessoal, de interpretação e estudo, sem qualquer outro tipo de consequências ou conclusões a tirar.
Perante os dons que Paulo escolheu para o seu texto, questionei-me acerca do porquê da escolha. Então lembrei-me das palavras de Jesus em Mateus capítulo sete, versículos 21 a 23.

Nem todo o que me diz : Senhor, Senhor! Entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demónios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.
Almeida Revista e Corrigida itálico meu

Nesta passagem podemos incluir os dons espirituais usados por Paulo. Mas a primeira e mais imediata pergunta que me surge é esta: Como pode alguém que pratica a iniquidade, ser utilizado por Deus em dons? Sim podemos concluir que eram dons de Deus, uma vez que não foram desmentidos, não podemos concluir, como alguns fazem, que estas pessoas eram usadas pelo Diabo para imitar os dons de Deus. Essa é uma extrapolação exterior ao texto, que não o permite de todo.
Mas a resposta à pergunta feita anteriormente reside na graça de Deus. A estas operações maravilhosas Paulo, e a Palavra de Deus, chama de dons. Dons são dádivas, ou será que já nos esquecemos que a salvação não vem de nós é DOM de Deus. Dom é dádiva imerecida, é entrega total, é depósito sem pagamento, como diz a Bíblia em Isaías capítulo 55, versículos um a 11:

Ah! Todos que tendes sede, vinde à água.
Vós, os que não tendes dinheiro, vinde,
comprai e comei; comprai, sem dinheiro
e sem pagar, vinho e leite.
Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão,
e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer?
Ouvi-me com toda a atenção e comei o que é bom;
haveis de deleitar-vos com manjares revigorantes.
Escutai-me e vinde a mim,
ouvi-me e haveis de viver.
Farei convosco uma aliança eterna,
assegurando-vos as graças prometidas a Davi.
Com efeito, eu o pus como testemunha aos povos,
como regente e comandante de povos.
Assim, tu chamarás por uma nação que não conheces,
sim, uma nação que não te conhece acorrerá a ti,
por causa de Iahweh teu Deus, à busca do Santo de Israel,
porque ele te cobriu de esplendor.
Procurai a Iahweh enquanto pode ser achado,
invocai-o enquanto está perto.
Abandone o ímpio o seu caminho,
e o homem mau os seus pensamentos,
e volte para Iahweh, pois terá compaixão dele,
e para o nosso Deus, porque é rico em perdão.
Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos,
e os vossos caminhos não são os meus caminhos,
oráculo de Iahweh.
Quanto os céus estão acima da terra,
Tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos,
E os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos.
Como a chuva e a neve descem do céu
e para lá não voltam, sem terem regado a terra,
tornando-a fecunda e fazendo-a germinar,
dando semente ao semeador e pão ao que come,
tal ocorre coma apalavra que sai da minha boca:
ela não torna a mim sem fruto;
antes cumpre a minha vontade
e assegura o êxito da missão para a qual a enviei.
Bíblia de Jerusalém

Creio que esta passagem é por demais grandiosa e esclarecedora acerca da natureza das dádivas de Deus. Também estes “dons do Espírito” são apenas ofertas entregues, ou melhor dizendo, distribuídas aos crentes para aquilo que Deus, nos seus mais “altos caminhos e pensamentos” deseja fazer. É verdade que as perguntas parecem se avolumar, os porquês parecem não ter fim, mas pensar que Deus tudo dá de graça e que os seus pensamentos estão muito além do que podemos até compreender! Se ao homem natural isto pode trazer insegurança e parecer até loucura, para aquele que tenta discernir as coisas com um olhar mais profundo e espiritual, as sensações que afloram ao pensamento são precisamente as inversas. Segurança, certeza de que Deus está no controle, assunção de que tudo tem um rumo, um sentido e um propósito, que agora podemos não o compreender e até ver, mas há propósito divino.
A dádiva dos dons de Deus é preciosa, mas Paulo nos alerta que o que dá realmente valor a esses dons, não é uma vida que tem de ser certa e até com um bom testemunho. Jesus disse que muitos que até manifestam dons, não são conhecidos de Cristo, clamam Senhor, Senhor mas estes não são filhos. Os dons só fazem sentido e têm valor se provêm de uma vida onde há fruto do Espírito antes de haver dom. Por isso tantas pessoas se confundem e perdem-se nos meandros da vida em igreja, sentem-se ser usadas por Deus em dons e sabem que a sua vida não está completamente acertada com Ele, ou então vêm pessoas de má índole a serem usadas em dons. O mais grave ainda é quando muitos são louvados pela manifestação de dons, quer seja por outros, ou trazendo exaltação a si próprios, tantas vezes disfarçando com falsa modéstia. Há ainda aqueles que dizem possuir um dom dado por Deus, quando é claro que estes são sempre de Deus, que os distribui quando, onde e para o que forem necessários, nunca dando um dom definitivamente a alguém. Pode qualquer um afirmar como posso declarar tal coisa tão taxativamente, e a resposta é muito simples: Deus não entrega, reparte ou distribui a sua glória a ninguém.
Mas vamos tentar trazer também um pouco de luz às situações anteriores. Quando alguém é usado por Deus em dons e sabe que a sua vida espiritual não está muito saudável: infelizmente esta é uma situação muito comum, e muitos crentes por falta de ensino correcto, perecem; é imperativo dar a entender duas coisas – os dons são de Deus que usa quem quer, quando quer, como quer e para o que quer – o ser usado em dons não significa que a vida espiritual de tal pessoa afinal já está bem, ao contrário do que se faz nas igrejas, onde quem é usado em dons é olhado como “super espiritual”; mas por outro lado também é importante dizer que vida espiritual sempre e totalmente correcta ninguém tem, senão já estaríamos no céu, e que ser usado é um privilégio de ser crente, que falha, cai, peca, mas arrepende-se e volta atrás. A conclusão a tirar aqui é que o ser usado em dons é dado aos crentes, não para medir a sua espiritualidade, ou aferir da qualidade da sua vida com Deus, mas sim uma dádiva, Deus quer usar, porque há uma necessidade. Por isso crente que é usado em dons é igual aos outros, com altos e baixos, fraquezas e fortalezas, que apenas se dispõe e Deus usa.
Quanto há situação em que alguém vê uma pessoa de má índole ser usada em dons espirituais, há mais alguma coisa a dizer. Em primeiro lugar há a questão do julgamento: está outro em posição de julgar da índole ou da vida espiritual do seu irmão. Atenção, conforme nos alerta a Palavra às traves do nosso olho, enquanto distraidamente, e tantas vezes até alegremente, apontamos para o argueiro, ou cisco, numa linguagem mais corrente, que está no olho do nosso próximo. Normalmente quando julgamos alguém estamos a fazer asneira, porque normalmente não estamos na posse de todos os dados para julgarmos.
Não sou defensor da ideia de que não devemos julgar, conforme tantas vezes ouvimos nas igrejas. A Palavra de Deus ensina-nos a julgar-mos todas as coisas e retermos o bem. Aqui reside normalmente o nosso primeiro erro. Fazemos julgamentos de tudo, tornamo-nos até cínicos e arrogantes, de uma superioridade absurda, quase “divina”, e depois guardamos tudo, o bom e o mau. Por vezes fazemos até pior, armazenamos apenas o mau, apenas para termos o que arremessar futuramente, e esquecemos o bom. É como a mais que batida figura do peixe, é guardar a espinha e deitar fora o peixe. Isto é errado e é pecado. Claro, que isto não sirva de desculpa para assimilarmos e até compactuarmos com heresias graves que se infiltraram e estão a infiltrar no seio da Igreja, essas devem ser combatidas, mas não com arrogância, contrapondo sim a verdade com a verdade, que é a Palavra. Adiante. Voltemos então ao ponto de partida: defendo que devemos de julgar tudo e reter apenas o bem, porém a Bíblia nos deixa uma advertência para a nossa vida acerca de julgamentos – a forma como julgamos os outros é forma como vamos ser julgados. Por isso cuidado. Ao julgarmos os outros, devemos pensar que na medida em que o fizermos, devemos estar dispostos a acarretar com um julgamento na mesma medida no futuro, dos outros e de Deus, em relação a nós.
Mas ainda assim vamos arriscar avançar e reflectir acerca de porque é que nas igrejas há pessoas de má índole que são usadas em dons espirituais: e a resposta é praticamente igual à da situação anterior - trata-se de um dom, uma dádiva, uma prerrogativa divina. E da mesma forma que na situação anterior, o facto de essas pessoas serem usadas por Deus em dons, não faz delas pessoas especiais de particular autoridade espiritual.
Quero ainda realçar o facto de que existem muitos homens que se exaltam ou são por outros exaltados pela manifestação de dons espirituais nas suas vidas. Isto é pecado. Infelizmente esta é a realidade, por muito que não se goste da palavra pecado, porque esse acto não passa de idolatria e é estar a dar a glória a outro que não ao dono do dom. Essa pessoa deve ser ainda mais humildade, mas uma humildade de vida vista e visível, credível, e não de alguém que diz estar tão acima das coisas da terra que as pode usufruir na totalidade, como acontece com alguns “gurus” hindus, e infelizmente não apenas hindus. A razão de ser de tal humildade é porque essa pessoa entende que nada tem e esses dons são totalmente de Deus e nada, mesmo nada, seus.
Estamos no domínio do sagrado, do santo em que o sobrenatural é uma realidade que vaga solta no meio de pessoas, que embora espirituais, pela sua fé, pela sua crença, ainda estão, no entanto, agarradas a corpos físicos e limitados, com dificuldades em discernir tantas coisas, em entender onde Deus se move. Tantas vezes se ouve com tanto alarido, “eis o senhor ali, eis o Senhor acolá”, conforme está escrito que seria um dos sinais dos últimos tempos. É verdade que é difícil, mas creio que Paulo, neste capítulo em que define amor, e a sua importância na vivência cristã, esclarecem a forma melhor de discernir aquando da manifestação de dons e maravilhas sobrenaturais, o que vem e é Deus e o que não vem, e é sim da carne ou do maligno. Paulo fala de dons de profecia, fé, ciência, etc., não vamos repetir a lista, e após cada dom, o apóstolo diz que se não houvesse nele o amor, ou a caridade, nada seria. As línguas sem amor são como metal que ressoa e como o sino que tine, ou como o bronze que ressoa e o címbalo que tine; a profecia, os mistérios, a ciência e até a fé, a fé vejam só de que tantos fazem deus, ter fé na fé, como alguns ensinam, mesmo essa, sem amor nada seria, ou noutras traduções o apóstolo diz “não presto para nada”. NADA. Onde está então o valor? Será nos dons?
A conclusão que podemos retirar desta primeira definição de amor de I Coríntios capítulo 13, é que o apóstolo considerava o amor como maior e mais importante que as línguas, a ciência, os mistérios, a fé, enfim que os “dons do Espírito Santo”. E aqui reside também a resposta à questão que ficou pairando no ar no parágrafo anterior: como discernir se uma manifestação espiritual é e vem de Deus? A resposta é esta: Paulo considerava, e assim por dizer que ele foi inspirado pelo Espírito Santo para escrever o que escreveu, que o fruto do Espírito Santo é maior e mais importante que o dom do Espírito Santo. Sim, porque o amor é o primeiro e principal elemento desse belo fruto, que o mesmo Espírito que esteve em Cristo, produz naquele em que este habita, e para o confirmar vamos então a Gálatas capítulo cinco, versículos 22 e 23:

Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio. Contra estas coisas não existe lei.
Bíblia de Jerusalém itálico meu

O fruto é maior que o dom, o fruto, na vida do cristão, é mais importante que o dom, e, o dom é e vem de Deus quando é manifesto numa vida que demonstra a produção e o aperfeiçoamento em cada dia do fruto, em detrimento da exaltação e exacerbação do dom. Sei que esta afirmação pode até ser polémica, mas é conclusão óbvia, simples e directa do texto que estamos a estudar. Por muito que alguns não gostem, principalmente os pregadores de milagres, os que gostam é de grandes algazarras com gente a gritar e pessoas a cair, a realidade é que o nosso Deus deu o fruto, e por existir o fruto concede o dom para o que for útil. O Senhor não traz o dom para que, pela sua manifestação, se produza o fruto.

OBRAS E AMOR
Vamos avançar e olhar agora para a afirmação seguinte do texto em estudo:

E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.
Almeida Revista e Corrigida grifo meu

O apóstolo Paulo foi talvez o homem mais esclarecido do primitivo cristianismo, ele compreendeu muito bem a dicotomia eterna que sempre existiu, que existia no seu tempo, e creio que no fundo ele sabia, que continuaria a existir, entre a salvação por obras ou sem as obras, por graça, por dádiva apenas. O apóstolo percebeu então que a mentalidade judaica, muito arraigada à ideia de que quem peca tinha que entregar um sacrifício, tinha de pagar, em vez de entenderem que o pobre animal é que suportava o preço do pecado com a sua vida, muito ligada ao olho por olho, dente por dente, dificilmente iria entender que, não só a salvação era pela graça, como também cada gesto nosso na direcção do próximo não deveria ser visto como um acto religioso, de obrigação meramente religiosa, conforme os preceitos da lei - chegando mesmo os religiosos fariseus, a fazerem tocar uma trombeta diante de si de cada vez que iam dar uma esmola, ou de cada vez que oravam por alguém no meio da rua, o faziam alto e em bom som para que todos vissem e ouvissem como eram espirituais, virtuosos e bondosos - mas sim um acto movido e motivado pelo amor.
Sim, o mesmo amor que motivava o Deus justo e severo do Antigo Testamento, a ter enviado o Messias sofredor, em vez de enviar o Messias guerreiro, militar, que iria restaurar Israel ao grupo das nações livres e grandiosas - os judeus ao longo da sua história já tinham até aquela altura aprendido a não ser idólatras, mas ainda não tinham aprendido a ser humildes – para apenas pela fé neste, perdoar todos os pecados, sem necessidade de nada mais.
Claro que qualquer mente religiosa não entende isto. Certa vez ouvi esta frase numa pregação na igreja e creio que é muito verdade: “o homem é religioso porque é um ser com uma natureza espiritual, foi criado à imagem de Deus, e, como não tem Deus inventa, inventa e surge a religião”.
É difícil entender que um Deus tão grande possa esquecer o pecado, motivado apenas pelo amor e fazer a humanidade entrar numa nova era, apenas porque o seu filho morreu e agora todos o que escolhem ter fé no seu filho, na sua obra e pedirem perdão pelos seus pecados, sem mais trabalho, sem mais sacrifício, sem nada mais que seja que uma entrega total da vida a Jesus, são também tornados filhos de Deus. Mas isto não é justiça, não é nenhuma outra coisa senão AMOR. Grande e sublime amor. A maior e mais excelente demonstração de amor.
Israel tem, razão, o Messias triunfante virá, mas primeiro veio o Messias sofredor, mostrando o coração amoroso do Pai. Creio ser aqui deveras importante olhar para, o que eu acho ser um dos mais maravilhosos e reveladores trechos da Bíblia, onde em três Salmos, três cânticos diferentes, mas que no entanto, nas nossas Bíblias se encontram seguidos, creio que não por acaso, mostram as três facetas do nosso Jesus: o Salmo 22 – o Messias sofredor; o salmo 23 – que mostra o Messias do nosso tempo, o Bom Pastor; e o Salmo 24 – que mostra o Messias triunfante, o Senhor dos Exércitos, o rei da glória, o Jesus que virá.

Salmo 22
Ao director do coro. Pela melodia “corça da aurora”. Salmo da colecção de Davi.

Meu Deus, meu deus, por que me abandonaste?
Por que te manténs distante,
quando eu grito por socorro?
Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes;
durante a noite, e não tenho sossego.
E contudo tu reinas no santuário,
como glória de Israel.
Os nossos antepassados confiaram em ti;
confiaram em ti e tu os livraste.
Pediram-te ajuda e escaparam do perigo;
confiaram em ti e não ficaram desiludidos.

Mas eu já não sou homem: sou um verme, desprezado por todos e escarnecido.
Os que me vêem zombam de ti;
fazem troça e abanam a cabeça, dizendo:
“Entregou-se ao senhor, ele que o livre;
que o salve, já que o ama.”
Tu cuidaste de mim desde o ventre de minha mãe
e puseste-me em segurança nos eus braços.
Antes de eu nascer fui entregue aos teus cuidados;
desde o ventre de minha mãe, tu és o meu deus.
Não te afastes de mim, porque a angústia vai chegar
e não tenho quem me ajude.

Muito inimigos rodeiam-me como touros;
cercam-me como touros ferozes da terra de Basã.
Como leões que rugem
abrem as suas bocas para me despedaçar.
Sou como água que se derrama;
todos os meus ossos se desconjuntam.
O meu coração, tal como cera,
derrete-se dentro de mim.
A minha garganta secou-se como barro cozido
e a minha língua pegou-se ao céu da boca.
Tu abandonaste-me à beira da sepultura.
Um bando de malfeitores me cercou como cães;
rasgaram-me as mãos e os pés.
Poderia contar todos os meus ossos;
os meus inimigos olham para mim e pasmam.
Repartem entre si a minha roupa e lançam sortes sobre ela.

Mas tu, Senhor, não te afastes de mim!
És a minha força! Vem depressa em meu auxílio!
Livra-me de morrer à espada;
não deixes que os cães me matem.
Livra-me da boca desse leões;
defende-me dos chifres desses touros.

Contarei, então, ao meu povo o que fizeste
e louvar-te-ei assim no meio da assembleia:
“Louvem o Senhor, todos os que crêem nele!
Glorifiquem-no todos os descendentes de Jacob!
Respeitem-no todos os descendentes de Israel!
Porque ele não despreza nem desdenha
dos sofrimentos dos pobres; nem desvia deles o olhar.
Ele ouve-os quando lhe pedem auxílio.”

Sem cessar te repetirei o meu louvor,
no meio da grande assembleia.
Na presença daqueles que te adoram,
cumprirei as promessas que te fiz.
Os pobres comerão até se fartarem;
os que buscam o senhor louvá-lo-ão.
Que eles vivam sempre bem!

Todas as nações se lembrarão do Senhor;
de toda a parte do mundo se voltarão para ele.
Todas as raças o adorarão.
De facto, o senhor é rei,
é ele quem governa as nações.
Adorem-no os que já desceram à sepultura;
todos os mortais se curvem na sua presença,

pois ele é quem dá a vida.
As gerações futuras servirão o senhor
e falarão dele à geração seguinte;
irão contar aos vindouros
aquilo que o Senhor fez, para salvar o seu povo.

Salmo 23
Salmo da colecção de David.

O Senhor é o meu pastor: nada me falta.
Em verdes pastos me faz descansar
e conduz-me a lugares de águas tranquilas.
Conforta a minha alma
e leva-me por caminhos rectos, honrando o seu bom nome.
Ainda que eu atravesse o mais escuro vale,
não terei receio de nada,
porque tu, Senhor, estás comigo.
A tua vara e o teu cajado dão-me segurança.

Preparaste-me um banquete à frente dos meus inimigos.
Recebeste-me com todas as honras
e encheste a minha taça até transbordar.
De facto, a tua bondade e o teu amor
acompanham-me ao longo da minha vida.
E na tua casa, Senhor, morarei para sempre.

Salmo 24
Salmo da colecção de David.

O mundo pertence ao Senhor, com tudo o que nele existe;
a terra e todos os que nela vivem são dele.
Ele edificou-a sobre as águas dos mares,
criou-a sobre as correntes do oceano.

Quem será digno de subir ao monte do Senhor?
Quem poderá apresentar-se no seu santo templo?
Só aqueles que são honestos em actos e pensamentos,
aqueles que não elevam o pensamento para os ídolos,
nem fazem promessas a falsos deuses.
A esses, o Senhor, seu Deus salvador,
abençoará e recompensará com generosidade.
Esses são os que buscam o Senhor,
que procuram a presença do Deus de Jacob.

Abram-se, ó portas eternas!
Fiquem abertas de par em par
que vai entrar o rei glorioso!
Quem é este rei glorioso?
É o Senhor, forte e poderoso,
o Senhor vitorioso nas batalhas.

Abram-se, ó portas eternas!
Fiquem abertas de par em par
que vai entrar o rei glorioso!
Quem é este rei glorioso?
É o Senhor, Deus do universo!
É ele o rei glorioso.
Bíblia “A Boa Nova”

Claro que Paulo conhecia bem estas palavras e, com certeza, no seu coração, entendia que a dificuldade dos judeus em deixar de olhar para Deus como severo, e vê-Lo como o Senhor misericordioso, movido pelo amor, dá a vida do seu filho, o primogénito, o dominador, de toda a criação, seria também a dificuldade daqueles que agora aceitavam “O Caminho”, fossem judeus ou gentios. Mas creio ainda que o maior temor do apóstolo seria que entre os cristãos entrasse o fermento dos fariseus, o “espírito” (atenção que quando falo aqui de espírito, não estou a falar de um ser espiritual, mas sim de uma atitude mental e de coração) da religião, substituindo a prática com sentido instrutivo, pela prática mecânica, substituindo a atitude do coração como dando sentido à prática, pela prática como tendo todo o valor. Daí que no texto em análise, Paulo falar da prática – as boas obras – como tendo apenas valor baseado no fruto – o amor.
Tornou-se bem claro na mente do apóstolo que o que motivava Deus nesta busca pelo homem perdido não são as obras. Nada que o ser humano pudesse fazer iria levar Deus a fazer a entrega do seu filho, logo não são as obras as motivadoras da graça. Olhou para o sacrifício e viu a graça de Deus, mas por trás Paulo, o imitador de Cristo, viu o amor como o grande motivador para as acções tremendas do nosso Deus. A Palavra de Deus ensina-nos isso mesmo.
(Estudo não concluído)
Sérgio Bernardo